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A tragédia da flexibilidade moral


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“É um bicho!” “É um gato!” Se não houvesse uma câmera de televisão por perto, a todos nós, por melhor que a cena fosse descrita em palavras, sempre os pormenores seriam recebidos como “exageros”. O mundo, sob o império das imagens, só acredita em fatos que passam na televisão, a senhora das nossas emoções. Ninguém duvida de imagens, ainda mais em cores e em movimento. E o áudio local? Mais dramático do que a própria sensação visual. A notícia teve impacto em todos os países civilizados. As cenas mostram pessoas tentando resgatar, com uma folha de palmeira, o saco plástico que bóia na lagoa. Desfeito o embrulho surge a criança recém-nascida. (Corta) A mãe declara não ter sido ela quem jogou às águas essa “droga de criança”.

Uma sensação de vazio invade o telespectador. As pessoas teriam perdido a referência da família? O século 21 continua a ser marcado pelo avanço da materialização da vida cotidiana. Quando Moisés foi deixado numa cesta de vime, boiando no Rio Nilo, já estava sob a proteção de Deus. Mais tarde ele revelaria ao seu ungido as Tábuas da Lei. Agora, “Deus está morto”, disse Nietzsche, em A Gaia Ciência. “Então tudo é permitido”, complementou Dostoievski. Entre luzes e sombras, este século apresenta-se, no tocante a valores sociais, tão sombrios quanto o passado.

Esse non sense leva as pessoas a uma alienação espiritual. O material ocupa o lugar do transcendente e passam a valer somente as condições objetivas de uma vida melhor, mesmo que para isso um filho indesejado tenha que ser descartado ou deixado à morte (quase) certa.

Ainda outro dia o Papa Bento XVI refletia sobre a flexibilização dos costumes, ou a ditadura do relativismo expressa no individualismo. É notório o enfraquecimento dos valores comunitários e da família, na medida em que se permite o avanço das possibilidades do desejo. A sociedade afluente nos oferece imensas perspectivas materiais de consumo.

Difícil resistir. Existem poucas possibilidades de se reverter esse quadro (mas é preciso lutar sempre) numa sociedade onde a corrupção é endêmica; onde os pais trocam seu afeto por notas de rendimento escolar dos filhos; onde as pessoas que se relacionam afetivamente enxergam como “carinho” ser presenteado com algum objeto do desejo, e não como oportunidade de aproveitar algo que deveria ser inesgotável. O amor.

Li, nem me lembro o autor, a história do menino que, ao perder a mãe, teve como primeiro sentimento o de que nunca mais comeria arroz doce, porque era ela quem fazia o seu prato favorito. Através dessa privação, aparentemente insignificante, a criança elabora a imagem da orfandade, de um futuro sem doçura. É diferente a sensação que me invade quando me oferecem bombocados. O afeto da minha mãe que impregnava o açúcar, os ovos, e o coco permanece eterno, para mim.

Em Cem anos de solidão, Gabriel García Márquez começa o seu famoso romance com uma reminiscência: “Muitos anos depois, diante de num pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo”.

Pessoas e objetos se confundem e ficamos sem compreender se os mortos são lembrados por eles mesmos ou por alguma metáfora do que significam. Até na hora da morte somos invadidos por imagens, sensações de gosto, de tato ou de audição das coisas que nos foram representativas. Fico pensando na mãe que rejeitou essa criança. A oportunidade perdida de ser lembrada pelo prato de arroz doce com as linhas de canela feito somente para alegrar a filha.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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