Creio e dou testemunho cotidiano, como missionária católica e militante socialista, desta afirmação feita no último dia 25 de janeiro, pelo papa Bento XVI. Sua primeira encíclica: Deus caritas est (Deus é amor).
Para Bento XVI, como a palavra amor tem sido usada para designar várias formas de relações é necessário um esclarecimento do entendimento da Igreja Católica sobre o amor.
O início do texto apresenta uma visão que separa o amor “Eros” (item 3: “amor entre homem e mulher, que não nasce da inteligência e da vontade mas de certa forma impõe-se ao ser humano”) do amor do “ágape” (7: “amor fundado pela fé e por ele plasmado”). O papa aponta a necessidade do amor “Eros” ser purificado e disciplinado. No item 7, 2º parágrafo, Bento XVI resgata esta idéia recolocando-a em outros termos, indicando que um tipo de amor se completa com o outro; e se assim não for, não será humano. A encíclica segue fazendo uma crítica ao marxismo e ao caminho tomado pela teologia da libertação e reforçando a tese da caridade. Se por acaso Roma não estivesse tão longe da realidade latino-americana das mulheres chefes de família. Mulheres estas que o capitalismo patriarcal tornou empobrecidas; mulheres enfraquecidas, abandonadas por seus companheiros e, por que não dizer, abandonadas também pela igreja; chegam ao ponto de não discernirem mais o que fazer com os frutos benditos de seus ventres, jogando-os nos rios contaminados pelo esgoto das cidades. Então, se Roma, por sorte, não estivesse tão longe, eu diria que o Santo Padre Papa Bento XVI foi parcial em sua primeira carta apostólica.
A carta explicita mais e mais as bênçãos do oficialato católico romano aos relacionamentos heterossexuais reafirmando questões sob as quais possui opinião consolidada. Ou seja, não usa o critério do amor dirigido às pessoas que não se enquadram no padrão heterossexual, nem fala diretamente das questões emergentes que exigem abordagens atualizadas e emergenciais, como AIDS, homossexualidade, violência de gênero, etc.
A encíclica se mostra um amplo e verdadeiro tratado do amor como base da doutrina cristã, mas não usa este critério para ter uma vivência que integre todas as pessoas, mulheres e homens, desta mesma Igreja; e nem considera as questões que tocam a vida das pessoas e não fala sobre o lugar das mulheres na doutrina católica.
Sobre o ecumenismo: apesar de ser tratado, em muitos momentos, pela Igreja Católica, não há de fato o mesmo amor e acolhimento para com as outras culturas e outras religiões. No item 9 da encíclica o papa confirma sua visão do catolicismo com uma apresentação do seu Deus como único: “verdadeiramente os outros deuses não são Deus... aparece perfeitamente claro que não um deus qualquer, mas o único Deus verdadeiro”.
Rosa Maria Morcelli - católica praticante - RG 6.365.049