Articulistas

Caros prefeitos


| Tempo de leitura: 3 min

Não está fácil. Não será tarefa fácil chegar ao fim do mandato com sorriso nos lábios e sem nenhum fio de cabelo branco. Chegado à calvície, a careca vai brilhar com mais intensidade. A bronca dos prefeitos é nacional. Muitos reclamam com razão. Mas sempre será aconselhável aferir os reclamos. Está cheio de pilantras e enganadores entre os mais de seiscentos prefeitos de São Paulo.

Um amigo catastrófico gosta de comparar a aventura de ser prefeito, hoje em dia, com esportes de alto risco. Nem voar em asa delta da Pedra da Gávea até São Conrado, nem escalar solitário o Pico Everest, nem saltar dentro de barrica nas Cataratas do Niagara chegam aos pés da aventura de ser eleito prefeito no Brasil. Vários fantasmas assombram os senhores prefeitos. De cara, a Lei de Responsabilidade Fiscal pode até por prefeito em cana. Não aconteceu, mas não custa ter esperanças. Os prefeitos estão desconfiados das novidades de nossa democracia.

O Tribunal de Contas, às vezes, resolve fiscalizar os gastos, as licitações, os contratos cabeludos, que dão privilégios a firmas locais, ou contratam firmas estranhas que chegam à cidade vindas de regiões longínquas, como Maranhão, Rio Grande do Sul ou Pará. Para surpresa de todos, chegam para construir rede de água pluvial, escolas e obras triviais...

Atemorizante tem sido a ação de nossos tribunos contemporâneos, a voz do povo e da Justiça, os promotores públicos. Alguns estão sempre atentos às denúncias. Outros só olham o que lhes interessa. Certas simpatias não geram processos. Certas idiossincrasias geram processos um atrás do outro. Não é ainda o reino da coerência. Acabarão por fixar padrão de atuação, fazendo vigorar a lei e o espírito da lei, sem privilégios ou sentimentos subjetivos. Chegarão ao ideal. Sobressalto vem de vereadores, que cismam de fiscalizar as administrações municipais. Viram o inferno nosso de cada dia do pobre prefeito. Será que os nobres vereadores vão exercer as prerrogativas de fiscalização e da feitura das leis municipais? As cidades podem se transformar em democracias da Grécia antiga? Podemos esperar tanto? Ou vão apenas papar as benesses da administração municipal e representar seus interesses pessoais e de seus cupinchas? O fortalecimento do legislativo tem gerado bons atritos entre executivo e legislativo. Escreveu não leu, o prefeito é cassado. Bom para a democracia? Impasse do regime presidencial...

Duro mesmo é enfrentar a população, cada dia mais exigente. Resolveu os problemas da saúde? Quando vai melhorar a qualidade do ensino? Quando teremos creches para todos os filhos de trabalhadores? E a buraqueira na rua? O serviço pífio da limpeza pública? Os eventos culturais vão acontecer? Sem contar as queixas dos altos impostos e os serviços medíocres. A choradeira é grande e vai continuar. A população está começando a ficar viciada em democracia.

Os prefeitos reeleitos estão em situação mais difícil dos que começaram em 2005, pois gastaram seus trunfos na reeleição. Penam para saldar as dívidas e mostrar serviço. A população pode parecer paciente. Deixa se envolver pela propaganda. Falam altas as rádios locais e a imprensa local. Em cidades grandes, torram nosso rico dinheirinho com marqueteiros e mil formas de criar uma expectativa positiva. Prefeito novo tenta ainda repetir a velha desculpa de estar consertando as finanças da antiga administração. Malandro escolado gastava para valer no fim do mandato. Era preciso dois anos para recompor as finanças. Sem reeleição era deitar cacete no novo prefeito: chorão, incompetente, não gosta de trabalhar. Velhos e recentes tempos...

Os prefeitos atravessaram bem 2005. As atenções estiveram voltadas para os descalabros de Brasília. Todo mundo enfiou a viola no saco. Tapar buraquinho aqui, economizar acolá, deixar a população gritar à vontade. Felizmente, em 2006, os prefeitos serão mais uma vez esquecidos. Chega logo o Carnaval. A política nacional pega fogo. Vem a Copa do Mundo. O ano termina com as eleições. Prefeito só vai ser lembrado em meados de 2007. Até lá, preparem o final da administração, pois o pau vai comer solto no lombo dos incompetentes... (O autor, Ulysses Guariba, é professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP)

Comentários

Comentários