Reproduzo, aqui, uma carta vazada numa linguagem extremamente rígida, escrita por um pai reacionário. Estamos em Londres, no dia 13 de agosto de 1866. A tarefa de você, meu caro leitor, é descobrir quem é o pai vitoriano que escreveu esta peça de conservadorismo explícito. O nome do autor da missiva (porque isto não é uma carta, é uma “missiva”...) está ao final dessa minha coluna. O desafio está lançado! “Estimado Lafargue, permita-me fazer-lhe as seguintes observações:
1) Se você deseja continuar suas relações com minha filha, tem que abandonar o seu modo de lhe fazer corte. Você sabe muito bem que ainda não se combinou nenhum noivado; que até agora tudo é provisório. E, mesmo que ela fosse formalmente sua prometida, você não poderia se esquecer que isso significa uma relação de longo termo. Um comportamento demasiado íntimo é ainda mais impróprio quando os dois prometidos têm que viver num mesmo local por um período necessariamente prolongado de purgatório e de severos testes. Tenho observado com consternação a mudança diária de sua conduta no espaço cronológico de apenas uma semana. A meu ver o verdadeiro amor se exprime justamente pela continência, comportamento recatado, até mesmo acanhamento com relação à amada e decididamente não em demonstrações de paixão descontrolada e manifestações de prematura familiaridade. Se você quiser apresentar, em sua defesa, o seu temperamento crioulo, é meu dever interpor o meu bom senso entre esse temperamento e minha filha.
2) Antes de acertar definitivamente suas relações com Laura exijo uma explicação clara sobre sua situação econômica. Não toquei nesse assunto porque me parece que caberia a você tomar a iniciativa. No que está ao meu alcance pretendo livrar minha filha dos escolhos em que a vida da mãe dela foi sacrificada. Sua situação, segundo informações que soube - sem procurar saber - não é em absoluto tranquilizadora. Suas possibilidades são, no mínimo, problemáticas. Minhas observações convenceram-me de que, por natureza, você não é diligente, apesar de surtos de atividade febril e boas intenções. Quanto à sua família, nada sei. Não sei mesmo como é que eles encaram seus planos de casamento. Espero sua resposta, sempre seu, (etc.)”. Essa carta aparece transcrita no livro de Yvonne Kapp, historiadora que fez a biografia de Eleanor Marx (Lawrence and Wishart, Londres, 1972). O autor da carta é Karl Marx. A sabedoria popular diz que “pelo dedo, se conhece o gigante”: pelo dedo das relações pessoais podemos conhecer o gigantismo autoritário das concepções políticas desse velho senhor vitoriano. Líder do proletariado? Farol da revolução social? Símbolo da luta pela igualdade? Revolucionário de escol? Ou apenas um moralista reacionário? Façam as suas apostas, caros leitores!
O autor, Ney Vilela, é professor e colaborador de Opinião