Bagdá - A onda de violência no Iraque desencadeada na manhã de anteontem, após um ataque a um santuário xiita, já deixou mais de 130 mortos no Iraque, dos quais ao menos 95 são vítimas de agressões entre sunitas e xiitas. A polícia iraquiana encontrou ontem 47 corpos baleados em Nahrawan (20 quilômetros ao sul de Baquba), região povoada por sunitas e xiitas e que foi palco de confronto das duas facções nas últimas 24 horas.
As vítimas, com idades entre 20 e 50 anos, seriam trabalhadores de uma fábrica de tijolos. Todos vestiam roupas civis. Informações não-confirmadas dão conta que homens armados teriam tirado as vítimas dos veículos em que viajavam (supostamente três ônibus), matando-as a tiros em seguida. Depois os agressores teriam incendiado os carros.
Outros 48 mortos, também vítimas da sangrenta revolta que explodiu nas 24 horas após o ataque ao santuário xiita, foram contabilizados pelas autoridades iraquianas. Eles seriam sunitas que viviam dentro ou nas proximidades de enclaves xiitas, segundo o Ministério iraquiano do Interior.
A onda de violência teve início na manhã de anteontem quando uma explosão destruiu grande parte da cúpula do santuário de Al Askari, principal templo xiita na região de Samarra (125 quilômetros ao norte de Bagdá).
O santuário é um dos quatro maiores e mais importantes para os xiitas iraquianos, e tem significado especial porque dois dos 12 imãs reverenciados como figuras predominantes para os xiitas estão enterrados no local: Ali al Hadi, que morrem em 868 d.C., e seu filho e 11.º imã, Hassan al Askari.
Ontem, milhares de xiitas saíram às ruas do Iraque pelo segundo dia consecutivo para protestar contra a explosão que destruiu a cúpula dourada da mesquita e deixou o resto do edifício em ruínas. Os protestos de ontem foram pacíficos, apesar de a maioria expressar fúria em suas fisionomias.
O presidente George W. Bush disse que o objetivo da explosão contra a mesquita visa gerar uma desordem civil. Grupos sunitas denunciaram que mais de 100 mesquitas desta facção religiosa foram incendiadas. Até o fechamento desta edição, o governo ainda não havia fornecido um número oficial.
A violência entre xiitas (que governam o país) e sunitas ocorre dois dias após sangrentos ataques terem causado a morte de mais de 50 civis xiitas, o que deixou a população indignada e expandiu o temor de que essa situação leve o país a uma guerra civil, além dos problemas já enfrentados com a rejeição à presença das tropas de ocupação lideradas pelo EUA.
Entre os mais de 130 mortos registrados no país (incluindo os 95 do conflito entre xiitas e sunitas) estão um repórter e dois câmeras do canal de televisão saudita “Al Arabiya”, seqüestrados anteontem perto de Samarra por um grupo de homens armados.
Os principais líderes políticos e religiosos pediram que os iraquianos se mantenham unidos, e advertiram que o ataque contra o templo xiita tinha como objetivo “incitar um conflito religioso no país”. Ontem, outras 16 pessoas morreram (entre elas oito soldados iraquianos) e 20 ficaram feridas na explosão de uma bomba na cidade de Baquba (60 quilômetros ao nordeste de Bagdá).