Política

Diretor da Bauruense é relacionado com assassinato de ex-prefeito de Campinas

Por Nélson Gonçalves | Com Carla Silva - especial do Correio Popular de Campinas
| Tempo de leitura: 4 min

Um ex-funcionário da empresa Bauruense, que compõe o Consórcio Ecocamp, acusou o diretor do grupo - que atua no serviço de coleta e tratamento de lixo em Campinas (SP) - Ramiro Ferreira Júnior, de ser o mandante do assassinato do ex-prefeito Antonio da Costa Santos, o Toninho do PT, ocorrido em 10 de setembro de 2001. A acusação, feita em entrevista exclusiva ao jornalista Roberto Cabrini e veiculada ontem à noite pela TV Bandeirantes, também foi dada pela testemunha em depoimento ao Ministério Público Estadual (MP).

O produtor do Jornal da Band, jornalista Mário Cesar Santos, conta que o ex-funcionário procurou Cabrini para contar sua versão: “Ele concordou em ir até o Ministério Público prestar depoimento, onde disse que ouviu uma conversa de Clóvis Franco, da Ecocamp, com o Ramiro Ferreira Júnior, da empresa Bauruense, onde eles disseram que era para dar baixa no ex-prefeito. O ex-funcionário disse que o ex-prefeito estava atrapalhando as negociações feitas no governo anterior e tentando modificar esquema da época do prefeito Francisco Amaral, fazendo redução de valor e dos serviços contratados”.

O empresário Ramiro Ferreira Júnior comentou, ontem à noite, que é “absurda, inconcebível e bárbara” a notícia. Ele disse que sua assessoria vai avaliar o conteúdo da matéria veiculada pela TV Bandeirantes para tomar providências. Em nota oficial, através do consórcio Ecocamp, o empresário reitera que não está envolvido no fato que levou à morte do ex-prefeito.

O Ministério Público vê com reservas as denúncias feitas pelo ex-funcionário do alto escalão da empresa Bauruense, que integra o consórcio Ecocamp, cujo nome foi mantido em sigilo. “O que podemos adiantar é que essa testemunha informou que a morte do prefeito estaria relacionada com corrupção na administração. No entanto, não podemos revelar o teor do depoimento, uma vez que a testemunha prestou seu depoimento sob a condição de sigilo”, explicou o promotor Fernando Viana, do Grupo de Atuação, Repressão e Combate ao Crime Organizado (Gaeco), ao jornal Correio Popular, de Campinas(SP).

Ainda segundo Viana, divulgar qualquer detalhe sobre o caso atrapalharia as investigações. “Vamos começar a investigação a partir do depoimento desta testemunha, apesar de termos uma outra referente à coleta do lixo na cidade”, comenta o promotor de justiça.

O consórcio Ecocamp considera irresponsáveis as declarações. “A propósito do depoimento de um ex-funcionário de uma das empresas do Consórcio, que teria ouvido supostas conversas sobre o prefeito, o Consórcio Ecocamp vem a público para manifestar sua indignação diante de declarações totalmente irresponsáveis. E, como toda a sociedade campineira e brasileira, o Consórcio Ecocamp acredita e espera que esse crime seja totalmente esclarecido”, traz a nota.

O prefeito de Campinas antes de Toninho do PT, Francisco Amaral, rejeitou a acusação de que os contratos de lixo teriam gerado superfaturamento e esquema de pagamento de propina em sua gestão. Amaral enviou nota ao Jornal da Band.

Serviço do lixo

A participação do consórcio em serviços públicos em Campinas teve início em dezembro de 2000, quando a Ecocamp venceu processo licitatório para atuar na área de limpeza urbana. Logo ao assumir a prefeitura, o prefeito Antônio da Costa Santos anunciou que iria renegociar os termos do contrato. O consórcio aceitou a proposta e cumpriu uma agenda de negociação civilizada com vários secretários do governo municipal e com o próprio prefeito. “No dia 13 de julho de 2001, reunidos na sede da Mata da Santa Genebra, o prefeito Antônio da Costa Santos, integrantes de seu governo e dirigentes do Consórcio Ecocamp anunciaram os termos finais do acordo, que atendeu plenamente ambas as partes”, resume a empresa.

A decisão de matar Toninho do PT teria sido tomada após este ter tentado atrapalhar o esquema de arrecadação montado com base em preços superfaturados para a coleta de lixo em Campinas. Toninho renegociou os contratos, reduzindo-os em 40%, passando de R$ 133,6 milhões para R$ 93,5 milhões, entre os anos de 2001 a 2004, conforme apurou o jornal Correio Popular.

As investigações feitas até agora apontavam que Toninho tinha sido assassinado pelo seqüestrador Wanderson Nilton de Paula Lima, o Andinho, e outros três comparsas, todos mortos. Andinho nunca assumiu a autoria do crime. A arma do crime, uma pistola nove milímetros, também não foi encontrada até hoje.

Crise institucional

O empresário Ramiro Ferreira Júnior lamentou as acusações e o momento de “crise institucional“ vivido pela empresa Bauruense, de propriedade de Airton Daré, fazendo referência às citações relacionadas a possíveis irregularidades na prestação de serviços para Furnas.

Em 13 anos de operações com Furnas, a Bauruense Tecnologia e Serviços firmou 36 contratos, no valor de R$ 735 milhões, objetos de licitação. A empresa está sendo citada em investigação realizada de Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), em andamento em Brasília (DF).

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