O machismo está decadente, mas ainda subsiste em todos os quadrantes do mundo. Culpa da Bíblia. Ou da serpente, se quiserem. Ao aceitar o convite para comer o fruto da Árvore do Bem e do Mal, Eva contraria os mandamentos de Deus e ainda induz Adão à tentação. Deus castiga Eva, infligindo os sofrimentos da maternidade a todas as mulheres, e a Adão, impõe o fardo do trabalho a todos os homens. Além disso, o Criador decreta que a fêmea ficará para sempre em posição de subordinação ao macho, como diz a Eva após o outono: “Seus desejos serão os do seu marido e ele a comandará” (Gn 3:16).
A história é velha, mas vale a pena analisá-la de uma maneira mais feminista. Por ter saído de uma costela de Adão, Eva não foi uma conseqüência, mas sim um aprimoramento da criação de Adão. Os gregos, que não conheciam o Velho Testamento, aceitavam a “ditadura” da mulher, pelo menos na área doméstica. Enquanto Odisseu, o herói da Guerra de Tróia, vagou por 19 anos, Penélope governou seu reino em Ítaca, criou o filho Telêmaco e rejeitou muitos pretendentes. Quando Odisseu chegou, Penélope o recebeu friamente. O marido teve que reconquistá-la primeiro para que depois lhe fosse permitida a volta ao leito conjugal. Em Lysistrata, comédia apresentada pela primeira vez no ano de 411 a.C., Aristófanes agarrou-se à imagem da esposa que recusa o sexo ao marido, transformando-a num caso político. Quando Lysistrata e suas irmãs decidem se opor ao jeito guerreiro de ser dos homens, simplesmente negando-se a ir para a cama com eles, há uma comoção na sociedade grega. Pelo menos neste momento, o poder da cama provou ser mais forte do que o poder da espada. A peça parece tão atual quanto ao slogan dos anos 60 “faça amor, não faça guerra”.
“Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas”, diz a canção do Chico Buarque. Fico imaginando as mulheres dos deputados e senadores numa guerra do sexo até que seus maridos se decidam a restaurar a moralidade. Que exemplo de brasilidade! O mesmo espírito de luta com as próprias armas deve ter movido as mulheres gaúchas do MST. Na madrugada de quarta-feira, invadiram os laboratórios da Aracruz Celulose. Nenhum civilizado pode ser a favor da violência, mas também não se pode ignorar a necessidade de que se encontrem soluções para as nossas mazelas sociais, muito especialmente porque aqueles que prometiam o paraíso chafurdam na lama da corrupção e se enredam na sua incompetência em gerenciar o País. A cada um de nós, brasileiros, cabe decidir se é eticamente justificável campesinas invadir, pilhar, incendiar e destruir propriedades privadas para chamar a atenção da opinião pública mundial à enorme pizza que desfigura o mapa do Brasil. Merece protesto a leniência do governo com os seus projetos sociais, enquanto pagamentos de mensalões são considerados práticas “normais”, ou, no máximo, pequenos deslizes que não justificam cassações.
Dizem que os prejuízos foram grandes lá no Sul: trabalho de pesquisa de mais de 20 anos destruído. Três milhões de mudas de eucalipto com melhoramentos genéticos de laboratório foram perdidas. A floresta homogênea, também chamada de “deserto verde”, vai sofrer atraso por causa da ação de centenas de mulheres que querem que se dê prioridade a um outro tipo de ciência. A ciência política e social. Aquela que pode apontar o caminho para uma melhor distribuição de renda neste País. Que assegure a todos o direito mínimo de trabalhar e comer.
A violência compromete o progresso. A ignorância vence a ciência. A impunidade corrói a esperança. Tudo isso é verdade, como também é verdade que homens e mulheres têm direito de protestar contra as injustiças. As campesinas gaúchas do MST comemoraram, a seu modo, o Dia Internacional da Mulher. Há quem ache mais interessante tomar chá com bolachas, posar para o fotógrafo e dizer frases inteligentes. Nada contra. Plutarco, grande apologista do amor conjugal, chegou ao desconsolo no seu diálogo “Eroticus” - Ah, se as mulheres soubessem que o poder também vem da cabeça... (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)