Haia - Slobodan Milosevic, cuja ditadura sobre a Iugoslávia nos anos 90 lhe rendeu no Ocidente o apelido de “carniceiro dos Bálcãs”, mas também a admiração de muitos sérvios, foi encontrado morto ontem em sua cela, na prisão da Organização das Nações Unidas (ONU), perto de Haia, na Holanda.
Milosevic, 64 anos, aparentemente morreu de causas naturais e estava em sua cama quando foi encontrado, de acordo com o Tribunal Penal Internacional.O ditador enfrentava julgamento desde fevereiro de 2002, por 66 acusações de crimes de guerra, crimes contra a humanidade e genocídio, cometidos na Croácia, na Bósnia e em Kosovo durante e depois da violenta desintegração da Iugoslávia nos anos 1990.
Mas o julgamento - considerado um dos principais testes judiciais desde os tribunais de Nuremberg após a Segunda Guerra Mundial - sofreu várias interrupções devido à saúde precária do ex-presidente, que sofria de hipertensão e problemas cardíacos crônicos. O fim do julgamento era esperado para este ano.
A morte de Milosevic ocorre menos de uma semana depois que a principal testemunha no processo, o ex-líder servo-croata Milan Babic, foi encontrado morto na mesma prisão. Babic, que estava cumprindo uma sentença de 13 anos de prisão, cometeu suicídio em sua cela.
A polícia holandesa iniciou um inquérito para investigar a morte, e determinou a realização de uma autópsia e um exame toxicológico no ex-ditador.
Trajetória
Ex-funcionário comunista e dirigente da companhia estatal de gás, Milosevic chegou ao topo do poder da política iugoslava aproveitando-se do vácuo de poder deixado em 1980 pela morte do líder iugoslavo Josip Tito, herói da resistência aos nazistas na Segunda Guerra (1939-1945), que governou o país de 1945 a 1980.
Eleito presidente sérvio em 1990, ele governou com punho de ferro até sua queda, em 2000. “Com a morte de Milosevic, um dos maiores atores, se não o maior autor, das guerras dos Bálcãs no fim do século 20, saiu a cena”, disse o chanceler francês Philippe Douste-Blazy, segundo o qual o iugoslavo morreu de causas naturais.
Um porta-voz do tribunal disse não estar autorizado a comentar as causas da morte até que a autópsia seja completada, mas acrescentou: “Não temos nenhuma indicação de que tenha sido um suicídio”.
Cardiologistas que tratavam o ex-presidente em Haia haviam alertado que ele sofria uma doença com alto risco de morte conhecida como emergência hipertensa, em que aumentos repentinos na pressão sangüínea podem causar danos ao coração, aos rins e ao sistema nervoso central.
No mês passado, o tribunal rejeitou um pedido de Milosevic para viajar à Rússia para receber tratamento médico, alegando o fato de o julgamento estar em seu último estágio - uma decisão lamentada ontem pelo governo russo.
Borislav Milosevic acusou o TPI de se ser “totalmente responsável” pela morte de seu irmão, de acordo com a agência de notícias Interfax. Ele disse ainda que a família “não confia” na autópsia a ser realizada pelo tribunal.
Repercussão
O ministro das Relações Exteriores da Sérvia e Montenegro, Vuk Draskovic, disse lamentar a morte de Milosevic antes do caso ser julgado. “É uma pena que ele não tenha enfrentado a Justiça em Belgrado”, disse.
O irmão do ex-presidente, Borislav Milosevic, atribuiu a morte do líder ao Tribunal Penal Internacional.