Bagdá - A polícia iraquiana encontrou pelo menos 87 homens mortos à queima-roupa nos últimos dois dias, informou ontem o Ministério do Interior, em mais um sinal de que a violência sectária está longe de diminuir. No caso mais grave, foram encontrados ao menos 29 cadáveres numa vala comum próxima de uma região xiita, no leste de Bagdá. Ao norte de Bagdá, uma bomba explodiu ontem entre peregrinos xiitas que viajavam a pé para a cidade sagrada de Karbala, matando um e deixando sete feridos.
Com a tensão sectária crescendo, o Ministério de Interior proibiu a circulação de veículos em Bagdá durante a primeira reunião do novo Parlamento iraquiano, amanhã. A medida vigorará a partir das 20h locais de hoje até as 16h de amanhã.
A disputa em torno da formação de um novo governo tem adiado a sessão inaugural. As eleições foram realizadas em 15 de dezembro, e os resultados, divulgados há pouco mais de um mês. Líderes dos principais blocos políticos e religiosos começaram ontem uma série de encontros para tentar acabar com o impasse. Participou da reunião o embaixador norte-americano em Bagdá, Zalmay Khalilzad.
Para os EUA, é crucial o próximo governo seja forte, centralizado e plural, para que possa estabilizar o país. Sob pressão norte-americana, os principais grupos étnicos e religiosos concordaram no domingo em se reunir diariamente até que possam desbloquear as negociações políticas.
A maioria dos corpos foi encontrada na Capital, e outros três na cidade de Mossul. Depois de receber uma denúncia anônima, a polícia encontrou um buraco de 48 metros quadrados num campo abandonado, em Kamaliyah, região predominantemente xiita de Bagdá. Dentro, havia ao menos 29 homens - a maioria apenas de cueca. O governo iraquiano estimou que eles foram mortos havia três dias.
Antes, um microônibus com 15 corpos dentro foi encontrado numa estrada que separa dois bairros sunitas, na região oeste de Bagdá. Na mesma região, 18 cadáveres já haviam sido localizados dentro de outro microônibus. Ao menos 40 outros corpos foram encontrados em Bagdá, em regiões sunitas e xiitas, informou a polícia iraquiana.
Os casos incluíram quatro homens mortos com tiros na cabeça e pendurados em postes de eletricidade em Sadr City, onde dois carros-bomba e quatro ataques com morteiro destruíram lojas e barracas de feira no domingo.
Dezenas de assustadas famílias xiitas têm abandonadas regiões predominantemente sunitas de Bagdá nas últimas semanas, algumas delas sob a mira de armas. Desde anteontem, mais de 100 famílias chegaram à Província Wasit, no sul xiita, informou o governo local. Ninguém sabe ao certo quem está por trás do ataque ou como, por exemplo, é possível deixar um microônibus cheio de mortos numa das vias mais movimentadas de Bagdá enquanto ainda há o toque de recolher à noite e inúmeros pontos de bloqueio de dia.
A suspeita generalizada é a de que alguns dos esquadrões da morte contam com o apoio do Ministério do Interior, controlado pelos xiitas. Por outro lado, a insurgência sunita já demonstrou que é bem organizada e letal.
A atual onda de violência sectária teve início no dia 22 de fevereiro, quando um ataque terrorista destruiu a Mesquita Dourada. O templo, em Samarra, é um dos mais importantes para os xiitas, e sua destruição detonou uma onda de ataques e contra-ataques que deixou centenas de mortos. A violência deixou o país à beira de uma guerra civil e tem dificultado as negociações para a formação de um novo governo.