Nos EUA moram 3,5 milhões de árabes e seus descendentes. Eles chegaram em duas levas de migração: a primeira leva, no final do século XIX, foi de sírio-libaneses cristãos, que viajavam pelo país como mascates, mas que acabaram por se concentrar na indústria automobilística de Michigan; a segunda onda ocorreu no final da década de 1960 e foi muito diversificada, pois foi constituída pelos palestinos (que são mais instruídos do que a média árabe), por refugiados políticos iraquianos e por xiitas de todo o Oriente Médio.
O presidente francês, Jacques Chirac, sempre se referiu ao “desumano capitalismo anglo-saxão”. Pois bem: os imigrantes árabes prosperam no capitalismo “desumano” dos EUA e estão muito ocupados em trabalhar e tocar os negócios, sem tempo para botar fogo nos carros dos vizinhos. Enquanto 24% dos norte-americanos têm diploma universitário, os descendentes de árabes somam 41% de diplomados; a renda familiar anual média, entre os árabes, está acima de US$ 50 mil; por último, precisamos lembrar que os árabes são os campeões de empreendedorismo étnico, ao lado dos russos, coreanos, israelenses e indianos.
E os imigrantes árabes, na França, vivem em que condições? Sabemos que o comportamento político dos franceses sempre transitou entre a hipocrisia e a arrogância. A esquerda francesa é a última guardiã da utopia que diz que, dentro do socialismo, não existe exploração, racismo ou pobreza. Em nome dessa utopia, construiu-se um modelo de utilização dos impostos para financiar uma casta de excluídos, que são pagos para não fazer nada. Os árabes, quase todos provenientes do norte do Saara, retribuem os subsídios e a piedade, com fúria, destruição de propriedades e desleixo para com o próximo.
Os monopólios das virtudes políticas e integracionistas francesas queimaram, em novembro, junto com milhares de carros e dezenas de edifícios públicos. Um jornalista do LCI (canal francês, de notícias), ao justificar o inexplicável desaparecimento das cenas de vandalismo nos subúrbios franceses nos noticiários da TV, disse que não desejava “ajudar políticos da direita, mostrando carros queimados”. Essa é a atitude de quem mostra diariamente decapitações em outros países e glorificam terroristas, legitimando-os com as repercussões.
O prefeito de Clichy-sous-Bois, onde começaram os motins, é um socialista. As ruas e praças das cités levam os nomes de “Stalingrado” e “Lênin”, ou homenageiam artistas e poetas da esquerda. Como disse Alain Finkielkraut, os amotinados não exigiam mais escolas, hospitais ou creches, mas se dedicaram a queimá-los.
A molecada arruaceira não é pobre, no sentido costumeiro da palavra: seus tênis e celulares e o uso estratégico da Internet indicam disponibilidade de recursos. O aspecto repugnante dos guetos, onde vivem, se deve ao seu desleixo niilista e ao “modelo social” francês, que dá, aos intelectuais que trabalham para o Estado, em jornadas de 35 horas semanais, o direito de se aposentarem jovens e com pensões elevadas. Este mesmo “modelo social” dá uma espécie de “bolsa-família” para os que não conseguem arranjar empregos, expulsando-os para os subúrbios e mergulhando os jovens desempregados na abjeta situação de receber esmolas mensais, do governo federal. O resultado só poderia ser infame.
O autor, Ney Vilela, é professor e articulista