O presidente Lula disse, num desses pronunciamentos que vem fazendo pelas suas viagens, agora pelo Brasil, que seu governo deverá ser o “governo da escola de qualidade”. Será que ele faz alguma idéia do que seja ‘escola de qualidade’? Ou melhor, será que ele está a par da realidade do sistema escolar brasileiro, para dizer isso à Nação? No ensino fundamental, obrigatório, há alunos assistindo às aulas de baixo de árvores, com professores leigos, voluntários; outros não puderam recomeçar as aulas porque, nas férias, a escola foi invadida pelo mato; outros, ainda, estão assistindo às aulas no ginásio de esportes porque as goteiras invadiram as salas de aula. Enquanto isso, os técnicos ficam discutindo se a alfabetização deve ser pelo método global ou pelo método fônico.
No ensino médio as matrículas diminuíram 1,5 % de 2004 para 2005, apesar do aumento da população na faixa etária correspondente. Quanto à qualidade, os cursinhos não acabaram, o que significa que apesar das facilidades para ingresso na universidade, com a quase extinção do vestibular, o que se aprende no ensino médio não é suficiente. No ensino superior, as escolas particulares cresceram vertiginosamente e a qualidade do ensino caiu a níveis inimagináveis.
É claro que esse é um problema também de estados e municípios, mas a condução geral é da União, de onde vêm as diretrizes educacionais e boa parte do dinheiro. Quem comanda é o MEC. As mudanças, as reformas vêm do MEC. Em 1961 saiu a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional mas antes que suas mudanças se consolidassem, o governo militar mexeu de novo, com a grande mudança que unificou o ensino médio, sob a pretensão absurda de profissionalização em massa. Daí para a frente cada governo mexe no sistema educacional como se fosse joguinho de criança que você muda as regras para evitar berreiro. Esquece-se que educação é coisa séria e que num sistema, quando se mexe em uma parte, por menor que seja, altera-se o sistema todo.
Quanto à ‘escola de qualidade’ é preciso saber, primeiro, o que é qualidade. Para Philip B. Crosby, um dos nomes mais respeitados no assunto , “qualidade é conformidade com os requisitos do cliente”. São as exigências de quem adquire ou utiliza alguma coisa que determinam a sua qualidade. Assim, o que é considerado de qualidade, ou de boa qualidade, para uns pode não ser para outros, cujas exigências sejam diferentes. Mas no caso da escola, quem é o cliente? Há os que dizem que o cliente é o aluno, principalmente quando se referem à escola particular, em que o aluno paga para freqüentar. Outros acham que o cliente da escola não é o aluno mas a sociedade. Esse era também o pensamento do eminente e saudoso professor Lourenço Filho. Para ele, os serviços escolares “existem em razão do que desejem os pais, esperem os vizinhos, os centros de trabalho e mais instituições; ou, afinal, segundo aquilo que cada comunidade em conjunto admita como útil, justo e necessário na formação e orientação das novas gerações.”
Qual a escola que a nossa sociedade deseja? Enquanto a maioria da sociedade for tolerante com o baixo padrão de aprendizagem, com a indisciplina, com os profissionais despreparados, enfim, enquanto as exigências da sociedade forem frouxas e indefinidas o presidente/candidato pode falar à vontade que deixará um governo reconhecido como o da ‘escola de qualidade’ porque não há qualidade a ser conferida.
O autor, Pedro Grava Zanotelli, é consultor e ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru