Paris - Milhares de estudantes, sindicalistas e esquerdistas tomaram as ruas de várias cidades francesas ontem para protestar contra a nova lei sobre o primeiro emprego para jovens. Segundo os organizadores, 160 marchas estavam programadas para ocorrer por todo o país, sendo que a maior delas estava prevista para acontecer em Paris. Até às 17h30 (horário local), já eram 300 mil pessoas protestando na capital. Ao todo, a expectativa era que houvesse 1 milhão de manifestantes. Em Toulouse, no sudeste, entre 21 mil e 33 mil pessoas, segundo diferentes fontes, marcharam gritando frases de protesto.
Em Lyon, na região sudoeste, o número de manifestantes foi de 10 mil, segundo a polícia, e de 25 mil, segundo os organizadores. O clima era festivo, embora houvesse o temor de violência e os líderes do movimento descartassem qualquer negociação agora. Chamada de novo contrato de emprego, a medida permitirá demitir jovens trabalhadores nos seus primeiros dois anos de trabalho sem que haja uma sólida justificativa.
A proposta irritou organizações estudantis e sindicais - que chamam a lei de “contrato Kleenex”, por meio da qual jovens trabalhadores são jogados fora como papel descartável. Teme-se que o novo contrato aumente o desemprego entre os jovens de classes menos privilegiadas e acabe com proteções trabalhistas tradicionais.
Com isso, segundo os críticos, os jovens se veriam em situação ainda mais precária do que a atual. Villepin acredita que o novo contrato de trabalho diminuirá a taxa de desemprego de 23% entre jovens, que alcança até 50% nos subúrbios das grandes cidades. Se o governo falhar em resolver a crise, o primeiro-ministro, que é também o favorito à sucessão de Chirac, e suas idéias de revitalização do país sairão prejudicadas. As eleições presidenciais estão marcadas para o ano que vem.
Os protestos de ontem foram a terceira onda de marchas em seis semanas de manifestações de estudantes contra a lei, prevista para entrar em vigor em abril. Estudantes paralisaram 16 universidades e boicotaram aulas em outras 35, de acordo com o ministro da Educação. Os atos, somados à violência, pressionam o governo de Dominique de Villepin a reagir contra a crise crescente.
Na sexta-feira à noite, um grupo de dirigentes universitários se reuniu com o premiê e pediu que a medida passasse a vigorar só daqui a seis meses, prazo que consideram necessário para que ocorram debates. “Dissemos ao premiê que tentativas de explicar o contrato serão em vão. Um período de debate é necessário”, disse Yannick Vallee, presidente da Universidade de Grenoble 1.
Anteontem, o presidente Jacques Chirac pediu que houvesse negociações imediatas entre membros do governo, estudantes e sindicatos, mas manteve sua posição a favor da medida, que, segundo ele, é um elemento importante para a política de combate ao desemprego. “O contrato criará novos postos de emprego para os jovens que se encontram à margem do mercado de trabalho”, disse o presidente francês.
Na quinta-feira, 250 mil estudantes tomaram as ruas em diversas cidades francesas, numa queda-de-braço com as autoridades do país. A maior parte das marchas foi pacífica, mas a violência irrompeu nos alojamentos estudantis da Sorbonne, em Paris.
Manifestantes fizeram barreiras contra a polícia com pedras e pedaços de metal, que retaliou com gás lacrimogêneo e balas de borracha. Ao menos 75 pessoas foram detidas. Na sexta-feira, um jovem de 18 anos foi condenado a um mês de prisão. Organizações estudantis repudiaram os atos de violência, que, segundo a polícia, foram causados por grupos de radicais, anarquistas e alguns delinqüentes, que chegaram a arrombar uma joalheria.
Os protestos refletem ainda um descontentamento com o governo conservador de Chirac.