No começo de 1996, o Supergrass veio ao Brasil. Completo desconhecido, o então trio britânico se apresentou no Hollywood Rock ao lado de Cure, Jimmy Page & Robert Plant, Smashing Pumpkins, Black Crowes, Aswad, Urge Overkill, White Zombie (melhor parar por aqui). Dez anos depois, continuamos com o Supergrass, que de rebentos darlings do britpop tornou-se banda “adulta” (leia-se menos escrachada), e essa nova face aparece no país em dois formatos: com o álbum “Road to Rouen” e em show em 8 de abril, no festival Campari Rock, em Atibaia (São Paulo).
Na primeira vez em que esteve entre nós, o grupo tinha acabado de lançar o disco de estréia, “I Should Coco”. Material de divulgação do Hollywood Rock e imprensa apresentavam a banda como “novíssima” e autora de “Alright”, um pop grudento que fazia parte da trilha do pop e grudento “As Patricinhas de Beverly Hills”. Poucos são os artistas pop que mudaram tanto em uma década. “Não sei o quanto mudamos”, afirma Gaz Coombes, o vocalista do Supergrass, por telefone, à reportagem. “Cada álbum representa bem o momento em que vivíamos em cada época, com todos os altos e baixos que enfrentamos. Bebês, casamentos... Passamos por períodos bem pesados.”
Mas a banda sempre foi ligada a uma imagem jovial, ensolarada. O motivo são canções de apelo pop e letras inconseqüentes, nonsense, como “Caught by the Fuzz”, “Sun Hits the Sky”, “Grace”, “Richard 3rd”, “Pumping on your Stereo”, “Mary”... Por isso, foram colocados dentro do rótulo britpop. “Não sei como me sinto (em relação ao britpop). Não havia tantas bandas boas. É uma música datada, que não envelheceu muito bem”, avalia Coombes.
“Road to Rouen”, o quinto álbum, é todo diferente, com muitas referências ao folk e poucos refrães. Hoje, com a entrada do tecladista Rob, irmão de Gaz, são um quarteto. “Antes nós nunca havíamos nos preocupado em fazer um disco inteiro com uma história. Esta foi a primeira vez, e acho que é nosso melhor álbum nesses dez, 11 anos. Queríamos algo que fosse quase o oposto daquilo que estávamos fazendo.”
As nove canções de “Road to Rouen” não são tipicamente radiofônicas. Pelo menos, para Coombes, não com aquilo que costuma-se ouvir nas rádios pop. “De certa forma isso é verdade, pois este não é um disco que tenha muitos singles pop. Mas ‘Low C’ ou ‘Fin’, especialmente a última parte do álbum, contém canções bonitas. Mas, claro, não soam como The Killers, por exemplo...”
No show brasileiro, diz o vocalista, a banda fará um apanhado da carreira, mais ou menos como o visto em “Supergrass Is 10”, coletânea lançada em 2004, também no Brasil. Mas não seria nada ruim se tocassem coisas novas. “Road to Rouen” é como o Supergrass relembrando experiências aflitivas e encarando suas conseqüências. Entre nove canções, traz dois quase-épicos: “Tales of Endurance (Parts 4, 5 & 6)” (que começa com uma grande introdução de violão, num clima folk, e ganha peso com a bateria ao final) e a tortuosa “Roxy”. “Coffee in the Pot”, instrumental, parece uma polca; “St. Petersburg” é balada triste e bonita. Em “Sad Girl”, o clima desce um pouco mais, na letra sobre uma garota gananciosa e perdida na vida.
As baladas aflitivas do Wilco, a imprevisibilidade do Flaming Lips... Se você assistiu alguns desses shows que passaram pelo Brasil recentemente, “Road to Rouen” soará como um velho amigo. E, às vezes, é bom estar em território conhecido.
• Serviço
Campari Rock com Supergrass, Mission of Burma, Fixmer & McCarthy, Ira! e outros, no dia 8 de abril, no Hotel Fazenda Hípica Atibaia (estrada Guaxinduva, 1.145, Atibaia, São Paulo). Ingressos de R$ 80,00 a R$ 100,00. Mais informações: www.camparirock.com.br ou (11) 4412-3000.