Tribuna do Leitor

Ensino religioso: obstáculos e requisitos básicos


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No dia 19/3 deste ano, sintonizei pelo canal 21 - Rede Vida - o programa de entrevistas "Prazer em Conhecê-lo" e lá estava, terminando a sua entrevista, o padre Juarez, refutando de forma jocosa e preconceituosa, com o apoio do apresentador Brancatto Jr, a reencarnação, por acreditarem, em síntese, não ter cabimento alguém pagar um pecado em uma outra vida quando Jesus já remiu, levou ou lavou os pecados do mundo. E também, de forma simplista, diziam não ter cabimento se pagar pecado numa outra vida sem sequer saber porque se paga.

Sob o ponto de vista da liberdade de expressão, acho importante e natural a abordagem de forma espontânea e sincera, posto que as pessoas são livres para se manifestarem segundo as suas convicções. Pois, assim, a faço, agora, através desta tribuna democrática, procurando mostrar que tais posicionamentos - resguardados pela liberdade de crença - são concebidos de forma bem diferente, mesmo por adeptos de um mesmo movimento religioso, em virtude de suas concepções mais amplas notadamente quando encaradas pela ótica educacional.

Isto porque, segundo os parâmetros traçados pelo Conselho Estadual de Educação deste Estado para nortear as bases do ensino religioso em escolas públicas e o que pensadores católicos, defensores obstinados desse tipo de ensino entendem, certas manifestações de fé radical e sectarista não coadunam com os avanços e rumos já traçados para o importante componente curricular: ensino religioso. Como exemplo marcante disso, o enfoque dado por aquele que considero um dos vanguardeiros do ensino religioso nas escolas: o grande pensador católico Francisco Catão que, em sua obra "A Educação no Mundo Pluralista", (1993), Editora Paulinas, enfatiza, muito bem: “Reconhecemos que, na ótica de certas igrejas, torna-se difícil admitir um ensino religioso não confessional nem interconfessional. Quando se entende que toda religião está baseada na fé e que esta consiste no reconhecimento de Jesus Cristo Salvador, como falar de um ensino religioso não ordenado à fé e ao reconhecimento de Jesus?”

Para finalizar, na parte final do meu trabalho de conclusão do curso (TCC) de pedagogia, apresentado no mês de agosto do ano passado, e que, graças à gentileza dos dirigentes do Iesb, se encontra disponibilizado no site da Faculdade, entendo que só há efetivo e proveitoso ensino religioso, em especial no âmbito das escolas, se o educador, esforçando-se para a realização da própria educação, procurar materializar os seguintes requisitos básicos: 1- Imparcialidade. 2- Valorização da verdade independente de onde ela estiver. 3- Enfrentamento do fenômeno religioso tal como ele se encontrar - registrado ou revelado - sem advogar perante os alunos - ainda em formação - preceitos de crenças ou doutrinas religiosas que lhe agrade ou tenha como verdade absoluta. 4- Estudar, pesquisando, de forma sistemática e continuada em todos os campos de conhecimento, em especial no das religiões, sem exceção alguma. 5- Ter consciência de que a transmissão de valores religiosos não deve estar desvinculada das respectivas bases filosóficas de cada uma das religiões, enfocadas, sob pena de não se atingir o nobre objetivo: conhecimento amplo e estruturado na busca da verdade.

José Quaglio - advogado, teólogo, pedagogo e licenciando em filosofia pelas Faculdades Claretianas de Rio Claro

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