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Deputados absolvem sexto ‘mensaleiro’

Por Fábio Zanini | Folhapress
| Tempo de leitura: 3 min

Brasília - O quórum baixo salvou ontem o mandato do deputado Wanderval dos Santos (PL-SP), que se tornou assim o sexto envolvido no escândalo do “mensalão” a ser absolvido. Em uma situação inédita na crise, mais deputados votaram pela cassação do que contra, mas aquém do mínimo necessário de 257 votos (maioria absoluta).

No final, faltaram 15 votos: foram 242 pela perda de mandato e 179 contra. Houve 20 abstenções e três em branco. Não compareceram à sessão 68 deputados - destes, 12 chegaram a marcar presença na portaria da Câmara, mas não votaram no plenário. Mais um parlamentar, o petista João Magno (MG), seria julgado pelo plenário na noite de ontem, também com forte tendência de se salvar. Até o fechamento desta edição, a votação não havia terminado.

Magno e Wanderval tiveram a cassação pedida pelo Conselho de Ética. O desinteresse de vários parlamentares durante toda a sessão contribuiu para a absolvição. Apenas 12 parlamentares ouviram o discurso do relator, Chico Alencar (Psol-RJ). Votaram apenas 444 deputados, 40 a menos do que é considerado uma margem segura. Como comparação, na cassação de José Dirceu (PT-SP), em novembro do ano passado, estiveram presentes 495 parlamentares.

O placar do “mensalão” registra até agora apenas três cassações: de Dirceu, Roberto Jefferson (PTB-RJ) e Pedro Corrêa (PP-PE). Quatro outros renunciaram e seis, com Magno, ainda precisam ser julgados pelo plenário. A principal acusação contra Wanderval, formulada pelo relator do processo, Chico Alencar, foi a de ele ter “terceirizado” seu mandato para a Igreja Universal do Reino de Deus, do qual era bispo até o início do escândalo.

No decorrer das investigações, o deputado acabou tendo de sair da igreja. Investigação da CPI dos Correios comprovou o saque de R$ 150 mil do valerioduto. Um de seus assessores, Célio Marques Siqueira, retirou a quantia de uma conta no Banco Rural por autorização escrita de Simone Vasconcelos, diretora financeira da SMP&B, agência do publicitário Marcos Valério de Souza. Primeiro, Wanderval negou o saque. Depois, o atribuiu a Siqueira, que agiria a mando do ex-deputado Carlos Rodrigues (PL-RJ).

Rodrigues, outro ex-bispo da Universal, renunciou no ano passado. Ele era o coordenador político da igreja e tinha ascendência sobre os demais parlamentares, segundo admitiu Wanderval.

Comodato

Veio daí a acusação do relator de que o deputado subordinou seu mandato ao de outro parlamentar, em regime de “comodato”. “O deputado Wanderval Santos reiterou que sua igreja tinha uma estrutura hierárquica que funcionava, que determinava subordinações, hierarquias e estruturas. Segundo o deputado, isso tinha de ser respeitado. Chegou a nos dizer que só foi candidato porque a igreja, detentora do seu mandato, segundo ele, assim o decidiu”, afirmou Alencar.

O relator considerou frágil a argumentação. Disse que Wanderval tinha relação de “parceria e sociedade” com Rodrigues e, por isso, tinha de assumir responsabilidade pelos atos de seu assessor. O deputado do PL, em sua defesa, repetiu que não sabia do saque nem a quem era destinado. “A verdade é que eu não sabia, não autorizei, não recebi e nem permiti que se recebesse qualquer valor do sr. Marcos Valério”, afirmou Wanderval.

“Covardia”

Chorando em vários momentos de seu discurso, Wanderval negou que seu mandato se subordinasse ao de Rodrigues ou seguisse as orientações da Universal. Disse que sofria perseguição em razão de seus “postulados de fé” e, numa manobra que surpreendeu alguns deputados, jogou toda a responsabilidade sobre Rodrigues, seu ex-aliado político. “Quem deveria estar aqui respondendo é o ex-deputado Carlos Rodrigues, mas a covardia o levou a renunciar”, declarou o deputado, que escapou de ficar inelegível por oito anos.

A sessão foi esvaziada em grande parte do tempo, o que irritou o relator. Seu discurso foi acompanhado por apenas 12 deputados. O de Wanderval não foi muito diferente, seguido por menos de 50 parlamentares. “Seguramente está-se dando pouca importância a esses processos disciplinares, que ao fim e ao cabo atingem dois pontos fundamentais: a credibilidade do Parlamento e o mandato parlamentar de cada processado”, disse Alencar.

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