A cana vem ocupando mais espaço no cenário agrícola paulista, seja pela grande oferta de automóveis bicombustível, seja pelo interesse de outros países pelo álcool, seja pelos bons preços pagos pelo açúcar no mercado externo. Discutir e planejar os rumos do setor, no entanto, são essenciais para que possamos estender este bom momento.
Mais de 70% dos automóveis fabricados no Brasil em janeiro de 2006 podem receber tanto gasolina quanto álcool, e existem projeções para que estes modelos representem até 85% das vendas, em breve. Isto representa um avanço para o consumidor, mas continua fundamental que o governo monitore os números, crie mecanismos legais e faça a ponte entre as montadoras e os fornecedores de álcool.
Veja o que aconteceu no início dos anos 90, quando muitos optaram pelo combustível “limpo” e ele faltou. Veja o que está acontecendo agora, quando todos voltaram a acreditar e sofrem com uma variação de preços que arrebenta qualquer projeção orçamentária. Não adianta o setor justificar dizendo que se trata de uma “simples recuperação no preço que estava abaixo do custo”. Não é o consumidor que tem de se preocupar com isto. Nos preços de hoje, excluindo outras variáveis, não vale a pena ter um carro a álcool. Amanhã vale, depois de amanhã não, e por aí vai. O governo e os setores devem se afinar para que estas variações não ocorram de maneira tão abrupta, gerando descrença nessa fonte tão promissora.
No caso da exportação, tanto do álcool quanto do açúcar, deve-se planejar para que saibamos a hora de estancar a substituição de outras culturas agrícolas pelos canaviais, pois a monocultura nos torna extremamente vulneráveis. Faz-se necessário também estudarmos o impacto da vinda em 2006 de mais 19 usinas de açúcar e álcool para o Estado de São Paulo. Em cinco anos, serão mais 40 usinas. O que deixará de ser produzido para que se plante cana? Não haverá problemas de abastecimento em outros setores? Para onde irão expandir estas lavouras? Para o cerrado? Para a floresta tropical? Não temos de pensar nisso?
A lei que regulamenta a queima da cana no Estado (11.241/2003) não estaria obsoleta? Ela não previa essa expansão explosiva do setor. De que adianta expandir a porcentagem de colheita mecanizada a cada 5 anos se a área plantada se expande mais rapidamente? Queimaremos mais cana amanhã do que queimávamos ontem, apesar da lei.
E os órgãos de fiscalização? Estão preparados? Só conseguimos uma estação de medição da Cetesb em Jaú mediante intervenção do Ministério Público. Para que se cumpra a citada lei é necessário que o Estado se estruture para isso. Como é que saberemos o momento de interromper as queimadas (conforme reza a lei) se não monitorarmos a qualidade do ar?
Acredito também que os fornecedores de cana devam receber uma atenção especial do poder público, pois muitos deles têm se tornado reféns de grandes corporações, que impõem valores decrescentes à tonelada de cana, enquanto aumentam seus lucros na outra ponta. E não adianta simplesmente mandar que plantem outra coisa, senão falta cana e nossa questão do planejamento volta a despencar. Estamos falando de planejamento estratégico a médio e longo prazo, algo que não pode depender do bom ou mau humor de poucos. Fornecedores devem receber uma quantia justa pelo que fornecem, e cooperativas fortes e independentes podem contribuir nesta questão.
Vislumbro uma oportunidade fantástica nessa área, que irá se concretizar se tivermos inteligência para planejar a expansão, coragem para abrir mão de interesses corporativos e sensibilidade para ouvir a sociedade nas questões que a afligem.
O autor, José Paulo Toffano, é coordenador regional do Partido Verde e ex-secretário de Meio Ambiente de Jaú