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‘Música pode transformar o País’

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 11 min

Eu tenho a força! O bordão, imortalizado na telinha da TV pelo personagem de desenho infantil He Man, que o bradava em alto e bom som quando deixava de ser o “fracote” príncipe Adam para transformar-se no forte e vigoroso herói, serve de exemplo para resumir o que pensa Sonia Maria Berriel Soares, coordenadora do tradicional coral Arte Viva, quando o assunto em questão é o poder da música.

Para ela, a música seria capaz de transformar para melhor a realidade de uma Nação formada por um imenso “mar” de desempregados, analfabetos e pobres como o Brasil. “Há vários exemplos de programas de incentivo à arte espalhados pelo País, e até em Bauru, que demonstram e comprovam a melhoria, em diversos níveis, das comunidades onde eles são desenvolvidos”, enfatiza.

Além de defender os programas de estímulo à música como forma de desenvolvimento do País, Sonia também fala de sua paixão pelo Arte Viva, coral em que está à frente desde sua fundação, há mais de 30 anos, e é um dos mais respeitados do Brasil. Em sua história, o grupo, que conta com 46 integrantes, já realizou mais de 3 mil apresentações públicas em Bauru, dezenas de cidades de São Paulo e outros 15 Estados. Em 1997 e 1998, realizou duas turnês internacionais, passando por Argentina, França e Espanha.

Pianista e regente de competência reconhecidas, Sonia aborda, ainda, como o coral atua para conseguir sustentar-se em virtude de ser independente e sem vínculos com entidades que provenham recursos, além de ressaltar as dificuldades enfrentadas por quem pretende seguir a carreira musical no País. Leia a seguir os principais trechos da entrevista:

Jornal da Cidade - Como é a Sonia fora do coral? O que você gosta de fazer em casa?

Sonia Maria Berriel Soares - Ao longo de minha vida já fiz de tudo. Já fui dona-de-casa de fazer todos os serviços domésticos e de cuidar dos filhos. Mas nos últimos 15 anos, sou muito bem tratada pela minha secretária e empregada, a dona Anita. Ela faz tudo em minha casa, conversa bastante comigo e sou uma pessoa hoje que não faço nenhum serviço doméstico e dedico minha vida a outras coisas. Adoro visitar pessoas e amigos, vou à igreja e, com ou sem o coral, procuro dar assistência para quem precisa. Também gosto muito de passear, assistir shows, estar com os meus amigos e ver a produção cultural de Bauru. E é com grande alegria que vejo nossa cidade deslanchando. O Teatro Municipal pode ser dito como não adequado para uma cidade como a nossa, mas foi uma grande conquista para a classe cultural de Bauru e também para nós vermos os grandes espetáculos, pois estávamos fora desse circuito apesar dos esforços do teatro amador com o Paulo Neves, que é digno de nota. Além disso, a Secretaria Municipal de Cultura e a Oficina Cultural Glauco Pinto de Moraes dão apoio para as artes e a Prefeitura Municipal tem uma lei de incentivo à cultura que permite que se apresente um projeto à disposição das pessoas.

JC - Como começou seu envolvimento com o coral?

Sonia - Fui uma boa pianista. Tocava muito com os meninos Godoy naquela época, que moravam aqui. Depois fui trabalhar na escola de Educação Física da Instituição Toledo de Ensino (ITE) e as aulas de ginástica rítmica eram feitas ao som de piano e eu era a pianista. Daí o doutor Antonio Eufrásio de Toledo, vendo que eu tinha uma boa comunicação com os alunos, me pediu se podia formar um coral lá dentro. Comecei lá e meu primeiro coral foi em 1969 chamado de “Jovens Cantores Universitários”. Foi aí que comecei esse lado da música vocal e depois nunca mais parei. Tive vários corais em Bauru, inclusive de penitenciária, que louvo muito e tive durante oito anos no Instituto Penal Agrícola (IPA). Mas o Arte Viva começou em 1975 como um coral de funcionários da Secretaria da Fazenda e, como tudo começa com uma idéia central de uma pessoa, mas ninguém é cativo nas cadeiras de comando, quem iniciou esse trabalho era o secretário da Fazenda que saiu quando o governo municipal terminou. Mas o Arte Viva já era muito bem recebido na cidade e já estava com a empatia formada e, por isso, continuamos. Hoje somos, já há muito tempo, um coral juridicamente constituído, não preso a nenhuma organização e que produz a própria verba para se manter como coral.

JC - São quantos integrantes?

Sonia - Atualmente estamos com 46, divididos em sopranos, contraltos, tenores e baixos, e ensaiamos na Oficina Cultural Glauco Pinto de Moraes, que é o nosso lar, três vezes por semana. Somos muito bem recebidos lá e também já ensaiamos na Câmara Municipal, onde igualmente fomos muito bem recebidos. Realmente não temos o dinheiro para comprar um prédio, mas temos o suficiente para nos uniformizar muito bem, comprar partituras no Exterior e atender as despesas da ida para festivais. Também já estivemos na Europa, na França, Espanha, Argentina e, no Brasil, conhecemos 16 Estados. Isso tudo foi feito com a nossa grana e trabalho. O Arte Viva é bem heterogêneo financeiramente, pois possui componentes de todas as faixas de renda e é um trabalho contínuo que faz com que possamos manter esse nível.

JC - E qual é o repertório do coral?

Sonia - Há corais que escolhem cantar um estilo musical. Uns preferem música erudita, outros se especializam só em renascença. Já o Arte Viva não, pois é eclético e canta de tudo para todos. Cantamos MPB, música sacra, erudita, erudita contemporânea e até sertaneja de raiz, pois a música popular brasileira de raiz no Brasil todo é a sertaneja. Também temos um repertório operístico. E assim temos mantido um público fiel.

JC - E como o coral consegue sobreviver da própria música em um País que mal valoriza a cultura e as artes? É quase um fenômeno conseguir isso no Brasil...

Sonia - Todas as pessoas que trabalham com música já lhes foi dada a oportunidade de trabalhar com outra coisa. Comigo foi assim, pois atuei vários anos em outra atividade, mas infeliz porque já tinha sido mordida pelo vírus da música. Você tem razão quando diz que é uma profissão difícil e, fora os grandes nomes nacionais, tanto da música erudita quanto da popular que são astros e ganham bem, os músicos comuns, de cidades do Interior como nós, sobrevivem com um dinheiro relativo, mas com uma ótima qualidade de vida. Penso que não atuaria em outra profissão, pois dá muito bem para sobreviver e tocar uma vida de classe média como é a minha. Para ficar rico, só se a sorte bafejar para o seu lado. Mas vejo muitos músicos, como eu, vivendo a vida toda de música. Não é fácil, mas é gratificante.

JC - Quais são os percalços nesse caminho?

Sonia - Música é alguma coisa que atinge a área cerebral da emoção, e as pessoas estão acostumadas a comprar o concreto. Você compra essa mesa, você compra aquela cadeira, ou se você vai fazer uma festa você compra o buffet, a comida que vai ser dada, mas quem é que vai criar o clima naquela festa? Quem é que vai dar a alegria contagiante? A música, não é verdade? Mas a música tem que ser cobrada sempre menos. E eu já tive oportunidade de passar por essa situação algumas vezes e dá até vontade de rir. É completo desconhecimento da nossa profissão quem faz isso. Quanto você cobra, e eu falo o preço, e a pessoa responde assim: Quanto? Mas ela não responderia assim se fosse para comprar um vestido maravilhoso para ir à festa. Mas depois de um certo tempo de apresentação de um trabalho decente e de bom nível, as pessoas começam a reverenciar o seu trabalho e te convidar a trabalhar mais. Eu sou capaz de ensaiar 8, 9, 10 horas por dia e não ficar cansada, pois trabalho com a coisa que mais gosto na vida.

JC - A senhora acha então que o segredo do sucesso do Arte Viva, além da paixão, é também o fato de ser eclético? Se fosse um coral que cantasse só música erudita, estaria fadado ao fracasso?

Sonia - Não, o que acontece é o seguinte. A música erudita necessita de um certo conhecimento, de um certo contato. Às vezes você chega num recital, o músico escolhe o repertório, vai tocar um concerto de música erudita e faz, por exemplo, quartetos de Beethoven, uma coisa muito especial que seu ouvido precisa estar muito aberto e você precisa conhecer um pouco de música, Então, fica enfadonho para as pessoas. Ao passo que grandes maestros brasileiros já fizeram diferente, e fazem ainda, como a Orquestra Sinfônica de Campinas, que toca um repertório enorme de música erudita mas escolhe músicas que já estão também bastante no ouvido das pessoas e que são de fácil assimilação. Então, se você põe uma música assim e outra que ele ainda não conheceu e depois põe mais outra que ele conhece, acho que seria uma oportunidade de divulgar mais a música erudita. Todas as vezes que fiz música erudita pensei nisso e no público e sempre fui bem recebida. Mas talvez, se eu fizesse um repertório só de música erudita eu não tivesse tantos convites.

JC - E como a senhora analisa a vida do músico no País? Não deve ser nada fácil...

Sonia - As pessoas de uma forma geral não conhecem a vida do músico. Elas pensam que depois que você aprendeu um instrumento, seja ele qual for, de corda, de sopro, teclado, você coloca uma partitura na frente e a pessoa toca. A vida do músico é ensaiar, estudar, comprar partitura, é se relacionar com os outros. Mas uma parte das pessoas não compreende o trabalho do músico. Quando o músico que toca na noite vai lá, monta a aparelhagem dele, fica tocando e sai 3, 4 horas da manhã, as pessoas falam: “Deus me livre que meu filho seja músico, ele é um boêmio”. Não é boêmio, pois conheço muita gente que toca em orquestra, que faz gravação em CD em São Paulo, grandes amigos meus que ficam horas em estúdio de gravação para receber o seu cachê, que não são nada boêmios.

JC - A senhora acha que o músico é muito estereotipado ainda?

Sonia - Eu acho que a profissão de músico é difícil, pois exige bastante empenho. Os pais querem para os filhos sempre uma vida mais cômoda, fazendo uma faculdade, lecionando, sendo um profissional da Justiça, da Fazenda, etc. Por isso, muitos pais tiram a chance de grandes talentos irem para frente. Aqui em Bauru vi pessoas assim que seriam, se tivessem seguido a carreira artística, de renome internacional.

JC - A senhora acha então que a desvalorização dos músicos começa já nas famílias?

Sonia - Sim. As famílias têm vontade de que o filho siga uma profissão menos trabalhosa, que vai dar um respaldo financeiro para ele no final do mês e sabe-se lá se mais tarde ele vai ter a própria família. Não é que os pais desestimulem os filhos tocarem um instrumento de forma não profissional, mas desestimulam que eles vão fazer um curso profissionalizante. Muitas famílias querem que essa atividade musical fique um hobby, um lindo hobby, mas não um ganha-pão, e estimulam o diletantismo. Por isso, às vezes, se precisa ouvir um bom professor que chega e diga que seu filho é um portento, uma pessoa dotada de um talento grande que se for desenvolvido será um grande músico. Daí os pais deveriam ajudar o filho que fazendo todo o nosso esforço no sentido de pagar uma faculdade boa para se estudar música. Porque música é sério e o estudo da música é seríssimo. Veja só o que ocorre na Vila São Paulo, um dos lugares mais carentes aqui de Bauru. Veio uma empresa, com a sua força financeira, contratou um regente e põs lá para fazer um projeto. No começo nem o próprio bairro aceitou. Mas depois, pela própria música, as crianças começaram a participar e hoje eles têm coral infantil, juvenil e um madrigal e são ótimos, pois até já gravaram um CD.

JC - Então a senhora acha que a música, assim como o esporte, pode transformar o País?

Sonia - Pode, completamente. O Brasil precisava muito mais desses programas do que muita coisa que está colocada aí. Mas não precisa fazer uma coisa musicalmente muito grande. Pode ser algo pequeno, em um conservatório de Bauru ou uma escola de música, para fazer uma seleção no começo do ano e dar dez vagas gratuitas para quem tem talento. Assim, cada um faz seu mundinho e da sua possibilidade alguma coisa que depois vira grande. Exemplo disso foi quando comecei a trabalhar com os monitores do PET, o Programa de Encontro das Turmas, que reúne crianças maiores de 7, 8 anos. Lá tem café da manhã, almoço, jantar, elas tomam banho e fazem atividades complementares. Elas entravam para ter aula de música e não ficavam quietas, riam o tempo todo, se batiam e eram muito indisciplinadas durante a aula. Mas depois de uns três ou quatro meses, passaram a ficar todas sentadas, achando uma posição de disciplina.

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