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Rato de biblioteca


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Luis da Silva, um funcionário público, típico intelectual provinciano, jornalista que escreve o que lhe mandam os poderosos; um pobre diabo envolto em suas paranóias e desgarrado da sociedade, da qual não consegue fazer parte - e, por isso mesmo vive a criticá-la. Luis da Silva vê a mulher por quem se apaixona ser seduzida por um bacharel metido a literato, Julião Tavares, burguês e canalha, filho de uma rica família de comerciantes. Transtornado, ele embarca num delírio febril que o levará a assassinar seu rival, por quem nutre verdadeiro e indisfarçável ódio.

Luis da Silva é um dos mais emblemáticos personagens da literatura brasileira, criado por Graciliano Ramos para a sua obra “Angústia”. O que me levou a reler o livro foi um ratinho que apareceu lá em casa, na biblioteca. Aliás, nem sei se era mesmo um rato. Minha mulher disse ter ouvido um farfalhar na papelada sobre a mesa e, apavorada, abandonou o local em disparada. No seu caminho havia uma porta. Havia uma quina de porta no seu caminho. O pavor valeu-lhe uma topada, três dedos do pé luxados e um feio hematoma. Naquela noite não dormimos. A Santinha gemia de dor e eu pensando no rato que, alta madrugada, provavelmente se divertia em mijar na minha tese de doutorado e fazer coco na dissertação de mestrado. Levantei, empunhei uma vassoura e parti intimorato para liquidar o roedor. Revirei tudo. Tirei os livros do lugar. Aproveitei para espanar a poeira e dei com o exemplar de “Angústia”. Carlos Lacerda recomendava aos jornalistas: “escrevam enxuto como Graciliano e claro como Eça”. Li a ambos e nunca consegui assimilar a técnica da objetividade, sem ser chato, ou a de mostrar a “nudez crua da verdade, sob o manto diáfano da fantasia”. Lembrava-me que alguma coisa tinha a ver meu ímpeto raticida com Luis da Silva. Achei a página... Em sua pequena casa, os ratos não o deixam se concentrar para redigir o artigo encomendado.“Os ratos não me deixavam fixar a atenção no trabalho (...) Tinham aberto um buraco no guarda-comidas e viviam lá dentro numa chiadeira infernal. (...) Íamos encontrar o armário dos livros transformados em cemitério de ratos. Os miseráveis escolhiam para sepultura as obras que mais agradavam. Antes, porém, faziam um sarapatel feio da papelada. Mijavam-me a literatura toda, comiam-me os sonetos inéditos. Eu não podia escrever”, diz Luis da Silva, o homem divorciado da sociedade, o homem sozinho, um lobo solitário. É em torno dele que “Angústia” gira. O mais taciturno e existencial dos personagens criados por Mestre Graça, embora ele preferisse qualificar-se como uma espécie de Fabiano, de “Vidas Secas”.

Do rato lá de casa, sequer uma pista. Armei a ratoeira munida de uma lasca de bacon nutrido, uma espécie de “mensalão”, na tentativa de atraí-lo. Nenhum sinal de visita, no dia seguinte. Sobrou dessa aventura a minha mulher com o pé enfaixado e o prazer de ter revisitado Graciliano Ramos naquela noite de “insônia”, por sinal o título de uma outra obra do mesmo autor, igualmente instigante. “Angústia” é ambientado em Maceió, mas nada tem a ver com a cidade de mar azul emoldurado de coqueirais e sol brilhante. A cidade de Graciliano é cinzenta, revelada ao leitor através das lentes do amargo Luis da Silva, um homem transtornado pelo ciúme. As belezas naturais dão lugar a um cenário onde os tons são ditados pelas mazelas humanas.

No dia três de março de 1936, há quase exatos setenta anos, o escritor foi preso, acusado de comunista, metido num porão de navio, mandado para o Recife e depois para o Rio de Janeiro, onde ficaria por quase um ano preso pela ditadura de Getúlio Vargas. Antes de ser preso havia entregado os originais de “Angústia”, em seguida formatados em livro por José Olympio. O escritor nem teve tempo de retocar sua criação. Por isso considerou o livro mal escrito, apesar de todos os elogios da crítica, “verdadeiros disparates”. Prefiro acreditar que não exista prova mais vigorosa e figura mais pungente como Luis da Silva, em toda a ficção. (O autor, Zarcillo Barbosa, é membro da Academia Bauruense de Letras e ocupa a Cadeira 17, que tem como patrono Nidoval Reis)

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