“A vida é a vida”, ele dizia em definitiva síntese. Passou lá em casa para pegar a declaração do Imposto de Renda e nem quis entrar. Alegou pressa para ir ao banco financiar a restituição. “A vida é um negócio de alto custo”. Incrível. Schopenhauer disse quase a mesma coisa em 1844 para justificar o fato de ter que matar um tigre por dia para poder sobreviver. Suas tiradas mostravam o gênio intuitivo escondido atrás do ar de resignado. Condenava o hábito de ler muito. Para ele não era bom empilhar informações sem deixar espaço à reflexão. Isso é Montaigne. T.S. Eliot, que ele também nunca leu, se perguntava: “Onde está o saber que perdemos na informação? Onde está a sabedoria que perdemos no conhecimento”?
Por isso era um gênio. O que eu levei anos de estudos para conhecer em comunicação ele já intuía. Seus audiovisuais sobre histórias de vida causavam grandes emoções. Notável o raciocínio dialético que empregava na narrativa sem jamais ter conhecido Hegel. Os maiores selecionadores de nelore do País o chamavam a Uberaba para contar a vida dos seus pioneiros. Testemunhei com o José Cabral em Foz do Iguaçu o impacto causado com o audiovisual dos desbravadores da terra e iniciadores da hotelaria de turismo.
Tinha uma frase conclusiva que também poderia valer para ele mesmo: “o homem só é grande quando serve a uma grandeza que não é sua”. Uma vez perguntei-lhe como era possível contar a vida de uma pessoa da qual nunca ouvira falar, somente por informações da família e algumas fotografias amarelecidas. “Eu não conto a vida das pessoas, só digo aquilo que eu gostaria que elas fossem”. E assim semeava felicidades...
Inventou, com Sampainho e Cabral, o Carnaval de Rua de Bauru. As arquibancadas, o grande público, as escolas, as alegorias... Sem acidentes ou incidentes o Carnaval fez memorável sucesso durante anos. Um calhorda quebrou-lhe o sigilo bancário, ilegalmente, para saber se ele estava ficando rico. Decepcionou-se... Serviu a vários governos municipais com lealdade, inventou o título de “Hóspede Oficial”, fundamental para a empatia entre a cidade e a autoridade importante. Conhecia o Protocolo do Itamarati e por isso nunca ouve uma gafe na recepção a cinco presidentes da República que aqui estiveram. Há vinte anos conseguira da Cesp, com o Cabral engenheiro-chefe, o levantamento planialtimétrico sem ônus, para a construção da av. Nações Unidas entre a Rodoviária e a Bauru-Marília. Acreditava ser essa a obra prioritária de Bauru porque o progresso que hoje conhecemos na parte habitada tende a se repetir do outro lado. E mais, dessa vez valorizando os terrenos de gente pobre. Convenceu Alcides Franciscato a adquirir o arquivo de negativos fotográficos de Aldire Guedes. O ex-prefeito e empresário entendeu de pronto que, se perdidas aquelas 5 mil fotos - aéreas em grande parte - jamais seria possível levantar a história do progresso urbanístico da cidade e fazer a leitura das representações políticas, sócio-econômicas e antropológicas. Aldire morreu agradecido porque Franciscato soube valorizar o seu trabalho e ainda por que também lhe possibilitou um pouco mais de conforto no fim da vida.
Fora esses lampejos de genialidade que não o impediram de perder o emprego em nome de uma falsa austeridade (foi aí que começou a morrer), era um homem comum. Passava todos os dias na padaria para levar o pão quente para casa. Nunca se esquecia da broinha que a Sônia tanto gostava. Cultivava com flores o amor nascido na pós-adolescência quando a menina bem-nascida encantou-se com a sua voz. Os quase 50 anos de convivência só deixaram na Sônia a certeza de que o coração do amado era ainda mais belo. Tinha orgulho da esposa e sua obra em favor das crianças pobres. Amava os filhos talentosos e, ultimamente, seguia com intensa alegria cada passo do desenvolvimento das netinhas gêmeas. Nem sei como explicaram a sua velha mãezinha, felizmente já um tanto “esquecida” da cabeça, a falta do “menino” e seu indefectível franguinho assado dos domingos.
Era um nobre, sem dúvida. Nunca ficou nos finais das festas que organizava para receber cumprimentos. Repetia Fernando Pessoa, aí sim com inteira consciência: “Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os segredos do mundo”. No sábado ele faltou – pela primeira vez - ao encontro que manteve durante 35 anos com alguns amigos para discutir os problemas da cidade que tanto amava. Sem querer, nessas conversas criou um bordão que depois se repetiu por aí, próprio para ocasiões inexoráveis: “Oremos!”. Adeus, Célio. A gente se encontra um dia, “entre brahmas e brumas e antárcticas espumas”.
O autor, Zarcillo Barbosa, foi e continua sendo amigo de Célio Gonçalves