Geral

Compradores são investigados antes de receber a mercadoria

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 3 min

Os adolescentes são maioria entre os vendedores de armas clandestinas. Eles sabem quem tem o produto e comercializam. Ganham 50% do preço da mercadoria, explica um deles. “O primeiro passo é conhecer e saber se o comprador é ponta firme. A polícia manda uns caras de bermudão comprar, mas a gente sabe que eles querem é nos pegar.”

Na dúvida, o vendedor diz que vai pesquisar quem vende e promete dar uma resposta. Chega a pegar o telefone do interessado. Se após levantar a vida do comprador não encontrar nenhum relacionamento com a polícia, começa a negociação. “Eu vejo qual arma o interessado quer e vou atrás. Assim que consigo, marco um local para a entrega e só entrego quando recebo o dinheiro”, relata.

O dinheiro pode ter dois destinos: conta bancária do “chefe” ou de algum “chegado” dele ou, ainda, ser entregue nas mãos do próprio comandante do negócio. “Eu só intermedio. Não posso levar o comprador lá.”

O vendedor tem como conseguir uma arma das mais simples num prazo de 48 horas. Se for mercadoria mais sofisticada, pode levar uma semana. “São armas clandestinas, produto de furto e roubo. Para a ‘empresa’ que eu trabalho, tem mais uns oito fazendo o mesmo serviço”, conta.

O adolescente conta que muitas armas são furtadas ou roubadas por viciados. “Eles trocam a arma pela droga e o chefe vende para recuperar o dinheiro. Quem compra tem que se comprometer e nunca dizer de quem comprou. O mais fácil é dizer que adquiriu na feira do rolo, porque lá tem muita gente. Se a gente sabe que o comprador vai cometer um crime, a gente orienta onde esconder a arma após a consumação. O melhor é enterrar”, orienta.

Armas usadas para cometer vários crimes são mais baratas. “Porque se a polícia pegar com você, você vai assinar não só o crime de sua autoria, mas vai ter que puxar todos aqueles cometidos com o armamento.”

O esquema de segurança da organização consiste em não ficar com a arma nas mãos. “A polícia não pega porque as armas não ficam nas mãos deles, ficam com os menores ou enterradas em locais que só os chefes sabem. As armas à venda só podem ser usadas quando o assunto é defender um amigo. “Se matam um amigo da gente, nós temos que correr atrás. A gente se junta, pega os revólveres. Aprendemos a atirar sozinho. “Ele admite que algumas vezes tem que correr da polícia. “Eles tentam de tudo, aparecem disfarçados de malandro, mas nós estamos ligeiros com eles. Alguns amigos já caíram nessa com droga, mas com arma eu desconheço.”

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Estimativas

Quando o assunto é tráfico de drogas, estima-se que a quantidade apreendida é 10% da existente. Adotando a mesma regra para o comércio de armas, já que não há levantamentos oficiais, é possível dizer que em Bauru tenha cerca de mil armas clandestinas em circulação. Os dados são baseados nas apreensões feitas nos primeiros meses deste ano.

Entre janeiro, fevereiro e março deste ano, até último dia 27 foram apreendidas em Bauru e região 181 armas de fogo e 104 armas brancas. Vale lembrar que os números não são reais, mas que podem ganhar significado quando se conversa com os comerciantes do ramo que vendem, trocam e deixam em consignação armas furtadas, roubadas e as produto de crime.

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