Tribuna do Leitor

Transamazônica - aventura


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Audaciosa aventura no interior da maior selva tropical do planeta, onde tudo poderia acontecer, até mesmo o impossível.

Ano: 1973 - Instigados por índole aventureira, herdada geneticamente de meus ancestrais goianos, de uma geração de poucas opções de lazer, a não ser as ligadas à natureza, realizamos longa e cansativa excursão, equivalente em linha reta, à distância entre Brasília e Roma.

Atravessamos em uma perua Kombi alguns dos Estados mais inóspitos que compõem a Amazônia, percorrendo 8.339 quilômetros de estradas de terras sem nenhuma conservação e 500 milhas náuticas, descendo de vapor as águas turbulentas do rio Amazonas, de Manaus a Santarém, no Pará, cobertos em 28 dias, seguindo este roteiro: Bauru/SP, Presidente Prudente/SP, Campo Grande/MS, Rondonópolis/MT, Cuiabá/MT, Vilhena/RO, Porto Velho/RO, Humaitá/AM, Manaus/AM, Santarém/PA, Altamira/PA, Estreito/PA, Belém/PA, Goiânia/GO, Bauru/SP.

Tripulação: Além de mim, minha esposa Eunice e nossos filhos Jacson, com 16 anos, e Marcelo apenas 6; de Agudos, cidade vizinha, o casal Aldo e Lúcia Paschoal e um cachorrinho fox, de nome Banzé, que era nosso pequeno e valente “escudeiro” de guarda, completavam a lotação.

Naquela época, o interior Norte do País não dispunha de hotel nem pensão, apenas algumas casas particulares, simples, mal conservadas, oferecendo hospedagens e refeições aos que se dirigiam às frentes de trabalhos, na estrada Transamazônica.

Assim, adaptamos uma Kombi em tenda ambulante, fazendo dela o nosso dormitório e sala de jantar, dormíamos na Kombi e em barracas pequenas.

Justificativas: Decorrido mais de 30 anos desses acontecimentos, teremos de forçar nossa memória, recorrendo a fotografias e anotações feitas em locais adversos, muitas delas já esquecidas ou perdidas no decorrer do tempo.

Embora a Transamazônica estivesse em construção, pensávamos que existiam mais facilidades em adentrá-la, mas não havia. Tínhamos o roteiro acima percorrido em toda sua extensão e nos pareceu o mais possível de ser vencido, desviando-nos da estrada, a maioria das vezes e ainda com milhares de quilômetros sem acesso, a qualquer tipo de trânsito.

A Transamazônica foi considerado o maior e dispendioso empreendimento viário deste hemisfério, construída sob forte ataque emocional do presidente Médice, militar da linha dura da revolução de 1964, causando severas críticas da mídia e dos setores mais radicais, até mesmo alguns jornais estrangeiros censuraram o presidente, por ordenar a construção da estrada sem nenhum planejamento ou assistência técnica.

Quanto ao nosso plano de viagem, era seguirmos o roteiro, acampando sempre o mais próximo dos canteiros de obras da Transamazônica, de alguma fazenda ou à beira de um rio de fácil acesso e nele descansarmos, pescando e diversificando, assim, nossa mistura, constituída de carne de porco na banha por várias semanas.

O único trecho que era pavimentado, de Humaitá a Manaus, hoje não mais existe. Índios, assaltos ou ataques de animais selvagens não nos preocuparia, pois sabíamos tudo a respeito de seus comportamentos e reações das pessoas.

Índios: Quase todos já aculturados, muitos trabalhando em harmonia com os brancos. Ataques de animais selvagens só ocorrem se acuados ou em defesa de sua prole. Com esses pensamentos positivos, fomos e voltamos sadios, um pouco magros, devido à dieta alimentar que nos impusemos em decorrência da longa viagem.

Em algumas ocasiões, já no final de nossa excursão, fomos obrigados a acampar em plena reserva florestal do rio Tapajós, no Pará, distante uns 200 quilômetros de Santarém/PA, quase alcançando o último trecho da Transamazônica, que cruzaria com nossa vicinal, a uns 100 quilômetros adiante. A única ocasião de maior aflição foi quando fomos surpreendidos por um grupo de índios que nos propuseram algumas trocas bizarras, mas sem ameaças, na qual acabamos cedendo aos seus apelos.

Foram momentos tensos nessa negociação e por alguns instantes até pensávamos o pior. E daí, vocês ficarão sabendo, por intermédio do 2.º livro, recheado de emoções e suspense a ser publicado, ainda este ano com o título: Transamazônica.

“Somente acreditamos nessa história aparentemente fantasiosa porque somos nós seus protagonistas. Para não nos esquecermos dos detalhes mais importantes e convencermos os leitores mais incrédulos, fotografamos, quando possível, pessoas de nossa equipe ao lado de algo que identificasse nossa presença naqueles lugares, naquele tempo.”

Felisdeu Leão

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