Uma peça com dinamismo visual, com elementos que representem a importância do fato e a história de seu herói, e estrutura estética que remeta diretamente à exploração do espaço. Essa é a idéia da qual parte o artista plástico, escultor e designer José dos Santos Laranjeira para a criação de um monumento em homenagem ao tenente-coronel Marcos César Pontes, bauruense que é o primeiro astronauta brasileiro. A obra marcará a Missão Centenário e poderá ser instalada na avenida Nações Unidas – referência de Bauru lembrada por Pontes em entrevistas.
O convite a Laranjeira, também bauruense, partiu da direção do Jornal da Cidade e 96 FM, que propôs e vem participando da organização de uma agenda de homenagens ao astronauta em conjunto com inúmeras entidades da sociedade civil, com autorização da família Pontes, em parceria com a escola Espaço e coordenação do amigo de Marcos Pontes, Marivaldo Campos Brito e apoio da municipalidade. Outras propostas semelhantes foram feitas nesta semana e a tendência é de que todos juntem esforços e participem unidos dessa e de outras promoções, já que todos têm o mesmo objetivo: homenagear Pontes, eternizar este grande momento e comemorar festivamente o seu feito.
A iniciativa foi proposta pelo Jornal da Cidade à família e à assessoria de Pontes no dia 9 de março.
De acordo com Laranjeira, uma de suas idéias para o projeto da homenagem é ter referências a pontas de lanças – elementos que o artista já usou em outros trabalhos – e que fazem alegoria à orientação ao futuro. “Uma nave espacial é um projétil humano lançado ao desconhecido, ao futuro. Esses conceitos devem delinear a obra”, completa.
Conceitos como tecnologia, conhecimento científico e exploração do espaço também serão estudados. “Penso na exploração além do planeta em um momento, inclusive, em que não conseguimos ainda superar e resolver os problemas aqui da Terra. Todas essas questões se aproximam pelo significado ”, analisa o escultor.
Laranjeira também já começa a pensar nos materiais que poderia usar na obra em homenagem à Missão Centenário. Em quase 30 anos trabalhando com arte, o bauruense já utilizou de recursos mais nobres, como mármore de carrara e bronze, a elementos dos mais comuns, como papel reciclado. “Como será um trabalho permanente, penso em concreto, bronze, aço inox, ferro”, revela.
Em seu processo de criação, Laranjeira explica que primeiramente reúne e analisa o máximo de conceitos, idéias e temas possíveis para a obra. “O grande esforço é limpar (risos)”, brinca, referindo-se ao que chama de promover uma conexão qualitativa com solução estética para o monumento. Em outras palavras, o artista busca, primeiramente, agrupar elementos que estejam relacionados ao tema da obra para depois filtrá-los e chegar a um conceito mais simples do que deseja mostrar ao público.
“É bom quando se chega à obviedade, mas como resultado de um grande esforço intelectual, e não uma obviedade primária”, comenta o bauruense. “A tentativa é de ter um insight que seja a resposta a tudo o que você acumulou e que tenha significado estético – não adianta ser uma peça feia”, acrescenta.
O artista destaca que atualmente está em processo de elaboração do projeto do monumento. Somente quando definir a proposta da obra será possível ter idéia de um prazo para sua entrega – o que depende dos processos que serão utilizados para sua construção.
Na programação planejada pelo comitê de homenagens à Marcos Pontes, constam uma parada em via pública, recepção em São Paulo e escolta até Bauru, telões para mostrar a chegada do astronauta, exposição de uma réplica do Demoiselle, modelo construído por Santos Dumont em 1909 e reproduzido pelo bauruense Milton Matheus Fercher, entre outras atividades.
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Escultor de Bauru
O sotaque pode até enganar, mas José dos Santos Laranjeira é filho de Bauru e o autor de alguns dos elementos visuais mais significativos da cidade. São criações suas o famoso leão que guarda a avenida Nações Unidas, a pomba que representa a Praça da Paz, o busto de Rui Barbosa na praça que leva seu nome, o Monumento ao Soldado Expedicionário, o painel que ilustra o Velório Municipal e o presbitério da Catedral do Divino Espírito Santo.
Nascido em 1959, Laranjeira mudou-se com a família para Montevideo, no Uruguai, antes de completar 1 ano. A infância e a adolescência foram passadas em colégios públicos, onde ele conseguiu a formação como técnico em arquitetura, e na Escola de Belas Artes. O contato com a escultura e as artes plásticas ocorreu ainda na infância, por volta de 9 anos, em razão de um vizinho que fazia entalhe em madeira. “Tive oportunidade de assistir a um profissional trabalhando ainda como criança”, relembra.
Aos 21 anos, Laranjeira veio passar férias no Brasil e decidiu ficar em Bauru. O início da década de 1980 era um período de efervescência artística na cidade e no Estado, e o então jovem escultor se deixou envolver por esse cenário, inclusive sagrando-se vencedor de diversos salões e concursos de arte. “Tive contato com a classe artística da região e o privilégio de conviver com pessoas como João e Salvador Ponce Paz, Angelina Messemberg, Alberto Paulovich, Rodolfo Hayzock e Walter Mortari, que foi um grande colaborador em minha inserção no meio local”, aponta o escultor.
Além da produção de diversas esculturas para locais públicos, Laranjeira ainda é criador de diversos troféus, como o da premiação da Associação Comercial e Industrial de Bauru (Acib), do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) e da Revista “Atenção”. A última criação foi o prêmio para o Campeonato Nacional de Vôo a Vela, realizado no final do ano passado.
Laranjeira também foi o coordenador do projeto Manifesto Arte e Dignidade, ocorrido simultaneamente em Bauru, na Itália, Espanha, Argentina, Uruguai, Venezuela e Colômbia, com o objetivo de promover intervenções urbanas sobre a exclusão social, que atinge parcela significativa da população.
Com alunos de educação artística da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Laranjeira deu colorido às paredes de casebres da favela do Jardim Europa, levando arte à comunidade. Em contrapartida, os moradores construíram um barraco dentro da universidade, na tentativa de chamar atenção para a exclusão social e aproximar as duas realidades.