Rio - Acordar cedo, trabalhar o dia todo, chegar tarde e ainda cuidar da casa e preparar o jantar para a família. Tal rotina era compartilhada em 2004 por 91,3% das mulheres brasileiras que trabalhavam fora. Elas destinavam 22 horas por semana, em média, aos afazeres domésticos. Em 2004, 35,4 milhões de mulheres estavam ocupadas - dessas, 32,3 milhões também se dedicavam aos serviços domésticos.
A dupla jornada não era tão freqüente entre os homens - 46,3% dos que trabalhavam também cuidavam de afazeres domésticos, de acordo com a Síntese dos Indicadores Sociais, publicação do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Mesmo entre os que ajudam em casa, a repartição do trabalho doméstico também não era das mais justas: os homens gastam cerca de dez horas semanais com os cuidados da casa. Supondo uma jornada de 8 horas nos cinco dias úteis da semana, os homens destinavam quase 2 horas diárias ao trabalho no lar, enquanto as mulheres gastavam 4 horas e 24 minutos diários adicionais a essa atividade. “A mulher acaba acumulando o trabalho fora com os afazeres da casa”, analisa o presidente do IBGE, Eduardo Nunes.
Mesmo mais dedicadas ao lar, as mulheres permanecem por mais tempo na escola: as que estavam empregadas têm, em média 8,6 anos de estudo, contra 7,6 anos dos homens.
Segundo o IBGE, as explicações para o maior nível de estudo das mulheres é que o fato de estarem menos inseridas no mercado de trabalho - 73,2% dos homens com mais de dez anos de estudo trabalham, contra 51,6% das mulheres - e de se ocuparem mais tardiamente.
Mais anos de estudo não garantem, porém, uma remuneração igual para as mulheres. O rendimento/hora feminino (R$ 4,20) correspondia a 84% da renda média dos homens - R$ 5,00. Quando analisado o rendimento médio mensal, porém, a diferença era maior: a renda das mulheres (R$ 644,80) representava 77,33% da dos homens (R$ 833,80).
Quanto mais anos de estudo, maior é a distância do rendimento feminino para o masculino, revela o IBGE. Na faixa de 12 anos de estudo ou mais (ao menos superior incompleto), as mulheres ganhavam por hora (R$ 10,10) 62% do rendimento masculino (R$ 16,40). A diferença era menor no grupo com até quatro anos de estudo: a renda feminina (R$ 2,10) correspondia a 84% da dos homens (R$ 2,60).
Os dados mostram ainda que o emprego feminino é de pior qualidade e que menos mulheres conseguem atingir o topo de suas carreiras.
Menos filhos
Quanto mais escolarizada, a mulher opta por ter menos filhos. A relação entre escolaridade e fecundidade vale tanto para mulheres brancas como negras. Mesmo assim, a fecundidade é menor entre mulheres brancas do que entre as de cor negra em todas as regiões do país.
Em 2004, mulheres em idade fértil - 15 a 49 anos - com baixo nível de instrução escolar, o que significa até três anos de estudo, tinham em média 3,9 filhos. Já para as mulheres com oito anos ou mais de estudo a taxa de fecundidade caía para 1,5 filho. Entre mulheres que recebiam mais de cinco salários-mínimos, por exemplo, e tinham até três anos de estudo, a média era de 4,3 filhos.
Já entre mulheres com a mesma faixa de renda, mas com oito anos ou mais de estudo essa média caía para 1,4 filho. Segundo o IBGE, em 2004, a probabilidade de uma mulher com oito anos ou mais de estudo, já com dois filhos, vir a ter o terceiro era de pouco mais de 50%.