Cultura

Ferrovia para poucos

Adriana Fricelli
| Tempo de leitura: 4 min

Um grande registro da história de Bauru está engavetado por possíveis divergências políticas que, vez ou outra, imperam na gestão pública. Os dois livros de memória oral do projeto Ferrovia Para Todos, da Secretaria Municipal de Cultura (SMC), não estão sendo distribuídos nem vendidos. Todo o material pesquisado e reunido para as publicações também não está disponível para consulta pública.

Editados na gestão anterior à do atual secretário municipal de Cultural, José Augusto Ribeiro Vinagre, os livros estão guardados no Museu Ferroviário Regional e disponíveis apenas para consulta. A justificativa do secretário é o débito de R$ 25 mil com a gráfica que imprimiu os dois volumes, acumulado desde a administração Nilson Costa. “Embora a gráfica não tenha impedido, eu não acho certo vender os livros sem ter pago a dívida. Assumimos a pasta com diversas pendências financeiras e ainda não conseguimos a verba para quitar todas”, coloca Vinagre.

Nos bastidores, a conversa é outra. A vaidade política foi o motivo alegado por muitas fontes que deram entrevista ao JC Cultura com garantia de sigilo de identidade. Para elas, os livros estão guardados porque fazem alusão à gestão anterior, o que não é interessante para o atual secretário.

Outro reflexo do problema refere-se a todo material obtido, cerca de 150 fitas e 75 apostilas de entrevistas já transcritas realizadas com ferroviários aposentados da Companhia Paulista de Estradas de Ferro e Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, sob a coordenação do professor Célio José Losnak. No projeto original, o acervo ficaria disponível para consulta pública, em um local com recursos adequados, porém está guardado em um armário da SMC.

“Com as reformas no Museu Ferroviário, estamos criando um espaço destinado para abrigar este acervo. No mais tardar, daqui a um mês, ficará pronto”, garante o diretor do Departamento de Proteção ao Patrimônio Cultural da SMC, Henrique Perazzi de Aquino.

Ainda dentro do projeto, um terceiro livro seria produzido, dessa vez sobre a história das empresas ferroviárias. A obra seria fruto de adaptações dos relatórios finais de iniciação científica de alunos bolsistas. “Minha intenção é terminá-la até o final do ano. No momento, é um trabalho independente, mas que futuramente precisará de parceiros”, aponta Losnak.

O trem continua...

Enquanto o projeto de resgate e preservação da memória oral dos ferroviários aposentados está estagnado, uma outra frente do Ferrovia Para Todos, que atua na restauração de composições férreas, retomou suas atividades depois de quase dois anos parada.

Entre 2001 e 2004 foram recuperados a locomotiva 278, de 1919, o carro de passageiro S-22, de 1943, e o carro dormitório O-1, de 1932. Os bens estão sendo utilizados nos passeios gratuitos oferecidos pela SMC a cada 15 dias. Antigamente, mais do que andar de trem, os participantes passavam por uma visita monitorada no museu, que incluía a exibição de um vídeo sobre o projeto. No entanto, desde 2005, não há mais monitoria.

“Houve um remanejamento da equipe que trabalhava no museu e o prédio também está passando por reformas. Mas pretendemos retomar o programa. Pensando nisso, fechamos um parceria com a Secretaria Municipal de Educação para que a monitoria seja fundamentada num projeto pedagógico”, diz Aquino.

Em contrapartida a tantas paralisações, a SMC começou há um mês a restauração do carro-restaurante. “Em 2005, passamos por um processo de reestruturação e agora demos início à recuperação. Além desse, pretendemos restaurar mais dois vagões, por intermédio do programa Poupatempo do governo estadual, que funcionarão como salas de leitura”, diz Vinagre.

São apenas quatro funcionários da prefeitura municipal que trabalham no carro, totalmente danificado por conta dos fatores externos a que ficou exposto. “Está tudo podre. Telhado, assoalho, vidros, mobiliária, tudo terá que ser trocado porque recebeu umidade por muito tempo”, explica o chefe da seção de restauração e responsável pela seção de pesquisa e documentação histórica da SMC, Alex Gimenez Sanches.

Para deixar a composição o mais próximo possível da original, os funcionários recorreram a documentos e fontes vivas. “Só vamos trocar os materiais que não são mais permitidos, como por exemplo o cedro rosa que, por estar em extinção, terá que ser substituído por outra madeira”.

O processo levará de oito a 12 meses para ser concluído e o custo final será de no mínimo R$ 8 mil. “A verba virá do Conselho do Museu Ferroviário e das parcerias que pretendemos firmar. Vamos tentar retomar antigas parcerias”, espera Sanches.

A idéia é de que o carro faça parte da composição que integra os passeios com a Maria-Fumaça e que têm tido bom público. O trajeto, que atualmente tem como destino a antiga estação da Companhia Paulista de Estradas de Ferro, deve ser estendido até Agudos ou Triagem Paulista. Para isso, é preciso autorização da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). “Já entramos com o pedido e estamos aguardando a resposta”, diz Sanches.

Além desse pedido, a SMC fechou parcerias com a Secretaria do Bem-Estar Social e com a Novoeste. Da primeira, conseguiu o maquinário da antiga escolinha que funcionava nos prédios da oficina da Novoeste; da última, foi cedido um barracão localizado em suas oficinas, onde será feito todo o processo de restauro.

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