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Tempos modernos


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Uma questão curiosa: já temos mais de meia década no século XXI e talvez ainda não tenhamos nos dado conta disso. Mas olhando um pouco para o passado, não dá para negar que nossos pensamentos, hábitos e preocupações são muito diferentes em relação há apenas algumas dezenas de anos. Em termos de marcos históricos, a divisão de épocas está aparentemente muito bem demarcada: a derrubada do muro de Berlim e a destruição do World Trade Center fazem bem este papel, com direito a alguns anos de folga entre um e outro fato, período no qual vários cientistas políticos e filósofos chegaram a profetizar algo como “O fim da história” na medida em que todos os problemas que afligiam a humanidade estavam solucionados ou seu equacionamento era apenas uma questão de mais alguns anos.

Amargo engano: os dias atuais são recheados de problemas em praticamente todos os campos da sociologia, política, economia e ciência. Pensando bem, afora os aspectos relacionados com a miséria e violência, seria muito difícil para nós, humanos, deixar de fustigar nossas próprias contradições, ou desistir não saber mais, ou mesmo parar de encher o saco do próximo. É claro, grande parte de nós está estressado com tanta confusão pessoal, nacional e global. Não são raros os que sonham com o tempo parando em eternas férias paradisíacas. Mas até que ponto temos realmente paciência para isso? Algumas semanas, ou meses de descanso seriam unanimemente bem recebidos. Mas afora aqueles poucos que sabem apreciar as delícias de uma boa preguiça (a exemplo de Dorival Caymmi, de acordo com o depoimento de seus amigos), a esmagadora maioria dos demais não demoraria muito para criar problemas, ou inventá-los, a fim de transformar o idealizado paraíso em um ambiente o mais próximo possível do habitat ideal para dar vazão as suas neuroses e criações.

Exemplos disso não faltam. Mesmo no Brasil, muitos locais originalmente idealizados para férias acabaram virando complexos núcleos urbanos, com direito a todos os problemas neles inerentes. Tentando concluir, parece que a humanidade não nasceu para ser lá muito pacata e mesmo o bom senso está muito longe de prevalecer. Mesmo quando surgem soluções para problemas considerados da maior importância, sempre vai haver grupos que vão se opor à novidade. Os avanços na engenharia genética são alvos de ataques de grupos religiosos (seria pecado decifrar a inteligência divina) e de naturalistas que se posicionam contrariamente à manipulação da natureza por vários motivos. Diga-se de passagem, o que estamos comentando é apenas a ponta de um gigantesco iceberg que envolve desde conflitos existenciais de cada um, até verdadeiros embates de civilizações; desde o poder curativo de uma planta, até os riscos derivados do aquecimento global.

Diante de tudo isso, este início de século XXI está se mostrando como um tempo em que a procura por certezas gera cada vez mais dúvidas... e tudo isso temperado com muita tecnologia e novos produtos. Não há porque avaliar se isto é bom ou mau; apenas é! E assim vamos seguindo em frente na nossa história. Ao mesmo tempo em que nos deliciamos com as últimas invenções, como o celular que também é repelente de insetos; as certezas vão, paradoxalmente, mudando tão rapidamente como uma troca de roupas. Preventivamente, nestes casos de plena convicção, o melhor é relembrar a célebre afirmativa do pai da filosofia ocidental: “Só sei que nada sei”.

O autor, Eduardo Starosta, é colaborador da seção Opinião

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