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Periferia soma 80% dos nascimentos

Érika Pelegrino
| Tempo de leitura: 4 min

Aos 23 anos, Adriana Carvalho está no segundo casamento, tem quatro filhos e está grávida de oito meses do quinto. Um do primeiro relacionamento, que conforme ela conta “não deu certo”. Dona de casa, marido servente de pedreiro, moradora do Ferradura Mirim, periferia de Bauru, a jovem leva uma vida sacrificada. Além das dificuldades econômicas, a caçula de apenas 1 ano nasceu com problemas de saúde.

“Ela tem anemia hereditária. Vivo correndo com ela para o hospital”, conta. O susto foi grande quando Adriana descobriu que estava grávida novamente. “Não conseguia aceitar, a minha caçula ainda bebê, com problema de saúde, como eu ia ter outro filho?”, questiona. O companheiro também não aceitou a idéia. Brigaram. Ele saiu de casa. Adriana teve medo. “Ia ficar sozinha com cinco filhos pra criar”. Acabaram voltando a morar juntos, mas as brigas ainda são freqüentes.

Nestes momentos, o companheiro, que se recusa a usar camisinha, responsabiliza a jovem pela nova gravidez. “Ele costuma brigar comigo e dizer porque eu fui engravidar de novo”, afirma. “Eu falo pra ele que não adianta eu me prevenir e ele, não”. Adriana conta que sempre engravidou tomando pílula anticoncepcional.

A quinta gravidez, segundo ela, aconteceu na troca de medicamento. “Eu mudei a pílula porque estava passando mal, acho que foi aí que fiquei grávida.” Aos oito meses de gravidez, enfrentando problemas de saúde decorrentes de hepatite e pressão alta, Adriana só pensa em fazer laqueadura.

O companheiro, segundo ela, se recusa a fazer vasectomia. “Ele diz que não sabe se a gente vai ficar junto a vida inteira. Então é pra eu fazer a cirurgia”, afirma. A história de Adriana simboliza a de muitas jovens mães que vivem na pobreza e que mesmo antes de fazer 25 anos já têm cinco, seis, sete filhos.

O estudo, “Perfil das Mães Brasileiras”, da Fundação Getúlio Vargas, do Rio de Janeiro, traz o dado de que as taxas de fecundidade estão relacionadas à pobreza e à densidade demográfica. “Quanto maior a pobreza e menor a concentração populacional, maior a fecundidade”, aponta o levantamento. Especificamente, em Bauru, de acordo com dados da Secretaria Municipal de Saúde, em 2005, nasceram 4.629 crianças. Destas, 80%, ou 3.703,2 são de mães moradoras na periferia.

Esta é uma realidade que muitas vezes suscita a pergunta: por que mães pobres têm mais filhos? Encontra-se todo tipo de situação, desde casos mais raros como de mulheres que vivem em condições de extrema miséria e, sem perspectiva alguma de vida, vêem na gravidez uma forma de ter acesso, ao menos, aos benefícios do governo, ou das que buscam na gestação uma forma de receber uma atenção maior dos maridos ou companheiros (estes casos são encontrados em qualquer classe social).

Os exemplos mais extremos existem, mas de longe não são a regra. A presidente do Conselho Municipal da Condição Feminina, Rosa Morcelli, alerta que é preciso entrar na realidade destas mulheres para compreender esta situação. Aqueles que de uma forma ou de outra imergem no cotidiano delas, tocam a alma de cada uma e encontram dor, medo, desconhecimento, resignação, mas também desejo.

Há aquelas mulheres, que mesmo muito pobres, calejadas pela dureza de suas vidas, querem ter seus filhos, ter um bebê para embalar nos braços. A psicóloga Ana Cláudia Bertolozzi Maia salienta que, especialmente entre as adolescentes, a gravidez nem sempre é indesejada, como afirmou-se com freqüência durante muito tempo.

Muitas vezes, de acordo com ela, a adolescente fantasia a gravidez como forma de escapar da realidade que vive. “Na classe média, elas querem romper com a família, acreditam que vão ficar com seus namorados, sair de casa, o que muitas vezes não acontece”, afirma. “Nas classes mais baixas elas podem receber o melhor alimento, a melhor cama por estarem grávidas, mas isto será cobrado depois.”

Precoce

A adolescente Tamara Veneza, 17 anos, casada, está grávida do primeiro filho. Ela não “fantasiou” a gravidez, mas também não conseguiu evitar. Afirma que pensava em ter filho depois que construísse sua casa. “Mas veio antes”, afirma.

A possibilidade de conseguir a atenção de seus companheiros, também é apontada, embora não isoladamente, por algumas especialistas como motivo de várias gravidezes na pobreza.

A filósofa francesa Elizabeth Badinter, em seu livro “O mito do amor materno”, defende a idéia de que na ausência do carinho dos parceiros, na falta dos recursos materiais e da perspectiva de carreira, as mulheres mais pobres veriam, de forma inconsciente, uma maneira de realização através da maternidade.

De acordo com a filósofa, a falta de tudo em suas vidas, seria como que compensada pela presença dos filhos. A mestra em sociologia e pesquisadora do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher (Neim), da Universidade Federal da Bahia, Márcia Macedo, em estudo sobre mulheres chefes de família, defende idéia semelhante. Os filhos seriam uma projeção, a esperança de um futuro para essas mulheres, a possibilidade de realização de tudo aquilo que não esteve ao alcance delas.

Para a presidente do Conselho Municipal da Condição Feminina, de Bauru, Rosa Morcelli, estas mulheres estão tão abandonadas que transar sem camisinha seria uma forma de não se indispor com o companheiro. A afetividade seria obtida, muitas vezes, apenas pelo contato físico. “Elas já perderam tudo, ter filho é ganhar”, afirma.

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