Um número enorme de analistas econômicos faz a seguinte afirmação, considerando-a óbvia: “Como existe uma economia global, há uma força de trabalho globalizada”. Acontece que esta declaração é incorreta, do ponto de vista empírico, e enganosa, do ponto de vista analítico. Embora o capital flua com liberdade nos circuitos eletrônicos das redes financeiras globais, o trabalho enreda-se nos preconceitos culturais, nas fronteiras nacionais, nos sentimentos xenófobos, na ação policial e em instituições conservadoras. Só 1,5% da força de trabalho global (80 milhões de trabalhadores) atuou fora do seu país, em 1993. Hoje, o número é ainda menor. Metade dos trabalhadores, que estão fora de suas respectivas pátrias, realiza suas atividades na África subsaariana e no Oriente Médio. Na União Européia, apesar de todos os cidadãos poderem se deslocar livremente, só 2% deles trabalham em outro país. E esta proporção se mantém inalterada há dez anos. Apesar do sentimento de que os migrantes do Sul e do Leste estejam invadindo a Europa Ocidental, a verdade é que a imigração de turcos e portugueses é hoje muito menor do que no ano de 1975. Utilizando alguns números ilustrativos, observamos que os trabalhadores imigrantes eram 6,5% do total, no Reino Unido, em 1975; hoje são 4%. Na França, o número caiu de 8,5% para 6,9%; na Alemanha, de 8% para 7,9%; na Suíça, de 24% para 18%. No início da década de 1990, devido ao colapso do império soviético, o asilo político aumentou o número de imigrantes, mas esse já é um fato do passado. Estima-se que o número de não-europeus vivendo na União Européia seja de 13 milhões de pessoas, com a suposição de que um quarto desse total constitua-se de clandestinos.
Os EUA sempre foram uma sociedade de imigrantes. Em 1910, os estrangeiros eram 14% da população norte-americana; hoje são 8%. É verdade que no início do século XX, quase todos os imigrantes norte-americanos eram europeus; hoje são latino-americanos. É também verdadeiro que a esmagadora maioria dos imigrantes europeus atuais são muçulmanos. Tangidos pela fome, pela guerra e por regimes políticos violentos e/ou corruptos, latinos e muçulmanos deslocam-se menos porque o mercado de trabalho globalizou-se, mais porque está ficando insuportável viver em alguns países pobres. As migrações não ocorreram por globalização do mercado de trabalho. Se há globalização de mão-de-obra, ela só vale para uma fração minúscula de profissionais com a mais alta especialização, atuando na área inovadora de Pesquisa e Desenvolvimento, engenharia de ponta, administração financeira e entretenimento.
Trabalhadores de países ricos reclamam que a industrialização na Ásia e na América Latina está roubando empregos da Europa. Dizem que as empresas multinacionais estão exportando empregos para os países onde a mão-de-obra é mais barata. Mesmo esta frase é parcialmente inverídica: o que parece estar acontecendo é que os europeus ficaram com os melhores empregos, vinculados a processos e atividades com maior valor agregado; os empregos que estão desaparecendo são aqueles reservados aos trabalhadores não-qualificados, por causa da concorrência dos trabalhadores dos países subdesenvolvidos, onde os salários são menores. A demanda por mão-de-obra não-qualificada, na Europa, declinou 20% em pouco mais de uma década. Quando os governos e as empresas não conseguem mudar as condições dos contratos de mão-de-obra, como acontece na União Européia, os trabalhadores não-qualificados ficam caros demais e são substituídos por latino-americanos e asiáticos, que continuam morando nas suas respectivas pátrias. As grandes empresas sabem que são bem-vindas em quaisquer regiões do planeta: por isso, simplesmente transferem suas estruturas produtivas quando se sentem prejudicadas por legislações trabalhistas que protegem os assalariados menos qualificados.
Podemos concluir dizendo que, embora não exista um mercado de trabalho global, há interdependência global da força de trabalho. Uma interdependência caracterizada pela segmentação hierárquica da mão-de-obra: bons salários para poucos, no centro do sistema capitalista; desemprego para os europeus não-qualificados; salários baixos para latinos e asiáticos com baixa instrução.
O autor, Ney Vilela, é colaborador da seção livre Opinião