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A inversão da pirâmide


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O rei lá em cima, os ministros logo abaixo, altos funcionários em seguida, funcionários comuns mais embaixo e na base, o povo. Esse conjunto forma uma pirâmide, porque o número de pessoas vai aumentando de cima para baixo. O povo trabalha para sustentar os funcionários, que servem seus chefes, que por último servem o rei. O presidente no topo, depois os ministros, os diretores, os funcionários e o povo. Mudam os nomes mas o paradigma, o modelo, continua o mesmo, o de baixo servindo o de cima. Esta é a sina, este é o destino do povo, embora os funcionários se chamem ‘servidores públicos’, isto é, pessoas que devem servir o povo. Esse é, também, o modelo seguido nos exércitos, nas igrejas e nas empresas, com os de baixo reclamando dos de cima por maus tratos, por falta de respeito e consideração, por falta de reconhecimento e, os de cima, reclamando dos de baixo por desinteresse, por falta de dedicação, por desperdício, por deslealdade. A desvantagem, porém, é sempre de quem está por baixo, de quem tem menos ou nenhum poder.

E se a situação fosse invertida, os de cima servindo os de baixo? Idéia maluca? Não. Isso já foi proposto pelo escritor norte americano Kenneth Blanchard há vinte anos, repercutindo favoravelmente nos estudos de Administração, e está em evidência agora, com o ‘best seller’ O Monge e o Executivo, de James C. Hunter. A idéia não é colocar o empregado mandando no patrão, o subordinado dando ordens para o chefe. Não é mudar a estrutura da organização, que sempre terá os que devem ficar em posições superiores a outros por competência, por direito, por necessidade de liderança. A mudança é no paradigma, no modo de pensar e agir. Como seria ou como é onde alguns, de vanguarda, já estão fazendo? Na situação dominante, o corriqueiro é o subordinado precisar pedir e ter que insistir para ter os recursos necessários à execução das suas tarefas. Tem que procurar as informações, tem que pedir para ser treinado, tem que reclamar da falta de materiais e de equipamentos e, freqüentemente, é tratado com indiferença ou repreendido. Como conseqüência, sentindo-se impotente para ter o que precisa para o cumprimento de suas obrigações, perde o interesse pelo trabalho. Na nova situação, o superior sai na dianteira e toma todas as providências para que o subordinado receba tudo o que é necessário para o bom desempenho de suas obrigações.

Num diálogo hipotético com uma empresária, Blanchard diz: “Se achar que seu pessoal é responsável e que seu trabalho consiste em ser sensível a ele, você realmente se esforça para provê-lo dos recursos e condições de trabalho necessários para atingir as metas que ambicionam atingir. Você percebe que sua tarefa não consiste em fazer todo o trabalho sozinha ou alhear-se e esperar o momento de ‘pegá-lo em flagrante’, mas em arregaçar as mangas e ajudá-lo a vencer. Se ele vencer, você vence também.” Invertendo o paradigma da pirâmide e colocando o povo na base lá em cima, de modo que os funcionários públicos estivessem à disposição para atender as suas necessidades, para as quais ele, povo, paga pesados tributos; se os funcionários tivessem os chefes e diretores prontos para suprir as suas necessidades, não deixando que nada faltasse para a realização de suas tarefas; se mais abaixo estivessem os secretários e ministros suprindo recursos aos diretores e, finalmente, se abaixo de todos estivesse o presidente, como líder máximo, servindo a todos com a sua autoridade e o seu poder, haveria uma mudança de atitude tão extraordinária que, seguramente, em vez de reclamar só teríamos motivos para agradecer e elogiar o governo.

O autor, Pedro Grava Zanotelli, é consultor e ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru

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