A Bauru dos dias atuais em nada lembra a cidade romântica e pacata do passado. A avenida Rodrigues Alves, antes ponto de encontro de namorados, hoje é apenas uma via poluída e movimentada. A rua Batista de Carvalho, na qual casais e famílias passeavam à noite, hoje representa risco de assaltos. A violência enforcou o romantismo.
Tanto que a maioria das pessoas entrevistadas pela reportagem não soube apontar sequer um lugar romântico em Bauru. Os que souberam indicaram o parque Vitória Régia como um ambiente bonito e agradável, no qual vão “de vez em quando”.
“A violência, a insegurança e o medo acabaram com o romantismo, com os namoros e com os passeios públicos pelas ruas de Bauru. Hoje as pessoas ficam em suas residências, e até os pais preferem que os filhos namorem em casa, pois sabem que a segurança é um pouco maior”, afirma o coordenador da Defesa Civil de Bauru, Álvaro de Brito.
De acordo com ele, alguns casais ainda param seus carros e namoram nas redondezas do parque Vitória Régia, na praça ao lado da Instituição Toledo de Ensino (ITE) e na avenida Getúlio Vargas, mas são poucos. “Os namoros nestes locais são todos dentro do carro. Quase não há mais paquera nas ruas. Mas mesmo dentro dos carros, o risco de violência é grande”, frisa.
O capitão Jorge Duarte Miguel, comandante da 1.º Companhia da Polícia Militar, reforça que os casais devem evitar namorar dentro do carro em locais escuros ou de pouco movimento. “Os locais ermos são vistos pelos criminosos como uma boa oportunidade para cometer roubos e outros crimes”, salienta.
O estudante universitário Jaime Lourenço, 24 anos, conta que já teve o seu carro roubado quando namorava em uma rua escura próxima à Universidade Estadual Paulista (Unesp). “Dois homens armados retiraram eu e minha namorada do carro e fugiram. Por sorte foi só o carro, porque a gente houve tantas histórias, né?”, diz.
Questionado sobre um local que considere romântico em Bauru, Lourenço pára, pensa e responde que não lembra de nenhum. “Acho que até por isso fui namorar em uma rua escura. Pra mim não existem lugares românticos em Bauru”, complementa.
“A violência foi, aos poucos, acabando com aquela época de ouro”, comenta o mecânico aposentado Florindo Martins, 73 anos. A época de ouro, mencionada por ele, são as décadas de 30, 40 e 50, quando moças e rapazes faziam footing (passeio a pé) na rua 1.º de Agosto, os jovens paqueravam ao som da banda marcial na praça Rui Barbosa e os casais passeavam pela avenida Rodrigues Alves e namoravam nos cinemas do Centro da cidade.
Nas décadas seguintes, o romantismo ainda perdurou com os passeios pela rua Batista de Carvalho, onde casais e famílias apreciavam as vitrines das lojas e, posteriormente, com os namoros na avenida Nações Unidas, quando ainda era permitido estacionar os carros ao longo da via pública.
A violência aumentou, o romantismo diminuiu e os casais passaram a namorar em casa. E na residência dos pais permanecem cada vez mais. De acordo com a terapeuta de família e casais Cinthia Romanini, a independência financeira das mulheres e os objetivos profissionais são os principais responsáveis para que as pessoas demorem a oficializar a relação.