Embora a violência, a insegurança e o medo dos dias atuais tenham acabado com o romantismo, com o footing (passeio a pé) e com as paqueras pelas ruas da cidade, Bauru nem sempre foi assim.
No ano de 1914 foi construído o jardim da praça Rui Barbosa, local bastante arborizado e que serviu de palco para diversos flertes. “No meio da praça formavam-se duas rodas: uma de homens e outra de mulheres. Eles ficavam passeando em círculos até que alguma moça simpatizasse com o rapaz. Daí eles saiam da roda e sentavam para conversar”, lembra o historiador Gabriel Ruiz Pelegrina.
Na década de 20, exatamente no ano de 1924, foi construído na quadra 6 da rua 1.º de Agosto o Teatro São Paulo, que logo tornou-se o Cine São Paulo. No local, muitos namoros começaram e casais já constituídos assistiam a filmes românticos ou de faroeste.
De acordo com Pelegrina, outros cinemas, como o Bauru, Capri, Bela Vista e Vila Rica foram surgindo no Centro da cidade com o passar dos anos. Na década de 50, já eram oito. “Não havia televisão e a diversão era limitada. Assim, os cinemas proliferaram”, salienta.
O mecânico aposentado Florindo Martins, 73 anos, recorda com saudades deste período. Ele conta que os encontros nos cinemas eram sigilosos e contidos. “As moças entravam com uma amiga à tiracolo, que guardava o lugar. Quando a luz apagava, a amiga saía e dava lugar para um rapaz. As luzes acendiam no meio do filme para trocar o rolo (filme) e virava um corre-corre”, lembra.
Nas décadas de 30, 40 e 50, o footing na rua 1.º de Agosto era o ponto de encontro dos jovens em busca de diversão, paquera e um eventual namoro. Pelegrina explica que os homens ficavam concentrados na rua e as mulheres, na calçada. “As moças ficavam andando enquanto os moços as observavam. Se acontecesse alguma troca de olhares e a moça se interessasse pelo rapaz, ela ou alguma amiga iam até ele para conversar”, afirma.
Pelegrina frisa que, nestas décadas, mãos dadas era o máximo a que se podia chegar, depois de muita conversa e após conquistar a confiança da parceira. “Se desse certo, pegava na mão e ficava conversando. Se avançasse, a moça largava e ia embora no mesmo momento”, confirma Martins.
Avenida dos namorados
Ainda na década de 40 e 50, a avenida Rodrigues Alves era o palco predileto dos enamorados. Ali, casais passeavam de um lado para o outro ou ficavam sentados nos bancos que existiam no canteiro central, debaixo de frondosas árvores. “Os casais passavam horas conversando. Tomavam um sorvete ou iam a alguma confeitaria saborear uma torta ou bolo”, explica Pelegrina.
Neste mesmo período, a banda marcial tocava no coreto da Praça Rui Barbosa todos os domingos. Os casais de namorados, as famílias e as pessoas em busca de paqueras apreciavam a boa música. Pelegrina conta que a banda parava de tocar às 20h e às 21h todos retornavam para suas residências. “A última sessão de cinema iniciava às 21h15. Então ou ia para o cinema ou para casa. A maioria das moças ia mesmo embora”, explica.
Os namoros na avenida Rodrigues Alves acabaram na década de 60, com a chegada de um inseto apelidado de Lacerdinha. Este inseto, que se parecia com uma pequena mosca, se alimentava das folhas das árvores Ficus benjamin. Árvores estas que ocupavam todo o canteiro central da avenida. “As pessoas jogavam água, fumaça e até fogo, mas as Lacerdinhas permaneciam. Então a solução foi cortar as árvores”, diz o historiador.
O apelido foi dado porque, à época do fato, o jornalista Carlos Lacerda fazia duras críticas e “incomodava” o então presidente da república, Getúlio Vargas.
Concomitante ao corte das árvores houve a popularização dos automóveis, que acabaram por tornar a avenida movimentada demais para que pudesse voltar a ser palco de encontros e namoros. “Os bancos foram retirados e blocos de cimento, que mais tarde seriam substituídos pelas ‘tartarugas’, ocuparam o centro da Rodrigues Alves”, recorda Pelegrina.
Por fim, na década de 80 ainda perdurou um certo romantismo. Ao longo da avenida Nações Unidas, era permitido que os automóveis estacionassem. Como o local disponha de iluminação precária, muitos jovens paravam seus carros para namorar. “Era uma espécie de footing. Os jovens se reuniam na avenida para conversar, paquerar e namorar. O movimento era muito grande. Era a avenida Getúlio Vargas dos anos 80”, comenta o coordenador da Defesa Civil de Bauru Álvaro de Brito.