Quem já teve a oportunidade de conhecer de perto o Jardim Europa, não pôde deixar de perceber o choque cultural existente naquela região. Sua localização no espaço urbano é privilegiada e por isso o bairro atrai diversos moradores de classe média e alta. No entanto, quase toda a zona sul conseguiu de certa forma “camuflar” a pobreza existente naquela região, com a construção de residências de alto luxo, ou mesmo os altos muros dos condomínios residenciais que dividem a linha da pobreza; o que de fato não aconteceu na realidade curiosa do Jardim Europa.
Às 18 horas se instala ali um cenário desigual. Surgem famílias transitando de carroças pela Avenida Nossa Senhora de Fátima, “linha” que cruza o bairro, dividindo-o em áreas alta e baixa. Pessoas que retornam para casa com seus carrinhos completos por lixos recicláveis ou trabalhadores da construção civil de bicicletas, ou simplesmente caminhando, porque ali se investem muito neste tipo de construção.
Em cada esquina você encontra alguém remexendo os lixos, procurando por materiais recicláveis como fonte de sobrevivência, ou mesmo a procura por algo para comer?!?! - afinal de acordo com a reportagem do JC do dia 02/05, 5,14% dos bauruenses ou 17 mil pessoas, ainda estão em situação de indigência e miséria, dados oferecidos por Egli Muniz, titular da Sebes. Muito perto dali surge outra realidade, carros importados estacionando nas garagens, crianças chegando da escola de peruas escolares, moradores saindo para o fitness diário, situações comuns da classe média.
Logo que me tornei moradora do lado “baixo” da avenida, há 7 meses, achava aquela experiência no mínimo interessante: convivência pacífica entre duas realidades distintas, um paradigma que poderia de fato dar certo, e por que não? Foi então que tive a primeira experiência de furto em minha residência, não levaram muita coisa, pode ter sido descuido de nossa parte, é só aumentar uma cerca elétrica aqui e outra ali, e está tudo bem, afinal em Bauru temos assaltos todos os dias, não é mesmo? - realidade a qual “nunca” deveríamos achar normal, afinal segurança é um dos nossos principais direitos constituídos. - Daí então veio o segundo, desta vez às 14h30, horário que voltaria do almoço para o trabalho. Não tenho dados para apresentar os números de assaltos e furtos no Jardim Europa, mas pelo que dizem é um dos locais com mais ocorrências deste tipo em Bauru.
Também infelizmente não pude participar das reuniões do plano diretor dessa região, que tenho a certeza considerou o constraste cultural instalado na região, uma vez que somente um trabalho de valorização e de conscientização de pessoas, numa dimensão coletiva, poderá diminuir o choque cultural existente.
Quem sabe nós, moradores, tenhamos que nos reunir e encontrar uma solução conjunta para a melhoria de qualidade de vida dessa região, uma vez que somente o interesse político e a contribuição da população podem reverter a situação. Sei que existem vários trabalhos pontuais desenvolvidos na favela, mas talvez seja necessário um trabalho com ambas populações. (Ronise Motta Pegoraro de Souza - RG 18.221.365)