Polícia

Rebelião no CDP acaba em violência

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 4 min

O fim da rebelião de presos do Centro de Detenção Provisória (CDP) de Bauru foi marcado pela violência. O saldo é de mais de 500 metros quadrados de mata queimados, presídio danificado, dois policiais e três presos feridos levemente e três mulheres espancadas.

O tumulto terminou por volta das 13h, com um acordo firmado entre os presidiários e a Polícia Militar. Os presos se comprometeram a entregar o único refém, um agente penitenciário. A polícia garantiu não invadir o prédio com a tropa de choque.

Os presidiários libertaram o refém. Contudo, a polícia esperou pouco mais de três horas e invadiu o local. A tropa tomou conta do presídio e logo em seguida explodiu bombas, que segundo o capitão Jorge Duarte Miguel, eram de efeito moral.

A cada explosão, uma revolta do lado de fora do presídio, onde esposas e mães choravam por seus maridos e filhos sem saber o que estava acontecendo. O mesmo acontecia com a imprensa, que não tinha nenhuma informação sobre o que ocorria do lado de dentro do prédio.

Sem armas e sem recursos, as mais de 30 mulheres e crianças reagiam com desespero. Gritavam, xingavam e pediam a Deus que não matassem seus filhos e maridos.

A fumaça preta que “nublava” a estrutura física do presídio assustava e, em meio a revolta, uma das visitas de preso ateou fogo na mata ao redor do CDP. O fogo se alastrou rapidamente e, minutos depois, uma pequena chama se transformou em um grande incêndio.

O Corpo de Bombeiros só chegou uma hora depois e encontrou um rastro de violência. Apagou o fogo que ainda restava, porém, não conseguiu impedir que mais de 500 metros quadrados de mata fossem consumidos pelo incêndio.

Por volta das 18h40, policiais militares compareceram à portaria do CDP para dar explicações às visitas e à imprensa.

Para o comandante da 1.ª Companhia da PM, capitão Jorge Duarte Miguel, a ação foi simples. “As bombas usadas eram de efeito moral, aquelas que não têm gás.”

Segundo o capitão, não há confirmação da relação da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) com a rebelião no CDP de Bauru. “Eles reivindicavam melhora na alimentação e nos recursos judiciais”, disse.

Para ele, os feridos foram leves. “Tivemos dois policiais e dois ou três presos feridos levemente. Os ferimentos foram decorrentes de pedradas, empurra-empurra e força física que tivemos que usar com um pequeno grupo.”

O capitão lembrou que o prédio do CDP sofreu danos e afirmou não possuir dados concretos sobre o número de apreensões feitas durante a blitz da polícia no local. “Não temos condições de observar isso nesse momento”, alegou.

Segundo o capitão, os presos não apanharam após entregar o refém. “Isso não aconteceu”, afirmou.

Confronto

A rebelião de presos no CDP começou na manhã de domingo, logo após a entrada de parte das visitas que ficaram detidas dentro do presídio até as 13h de ontem.

As mulheres, que por medo não se identificaram, contaram à reportagem que nem o refém e nem elas foram maltratadas ou sofreram qualquer tipo de ameaça por parte dos presidiários e da polícia.

Após o término da rebelião, elas deixaram o local. Muitas foram embora porque precisavam seguir para a Capital paulista, sua cidade de origem. O transporte do CDP para a rodoviária de Bauru foi feito por mototaxistas.

Outras ficaram para se certificar de que a polícia iria cumprir o combinado. Celular na mão, elas aguardavam a comunicação dos presos para saber o que estava acontecendo no interior do presídio.

De repente a comunicação foi cortada, provavelmente porque os aparelhos que estavam com os presos foram apreendidos durante a blitz da PM. Sem informações, elas se revoltaram e novamente atacaram verbalmente os policiais que, calados, observavam atentamente os rostos das visitas.

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Confronto

O relógio marcava 18h40 quando seis viaturas Blazer da PM deixaram o presídio. Com o giroflex (luzes no teto do veículo) e a sirene ligados e em alta velocidade, as viaturas saíram deixando um rastro de poeira.

Proposital ou não, a poeira serviu para encobrir o confronto rápido, porém violento da PM com as visitas dos presos.

Os portões do CDP se abriram e cerca de 20 policiais militares saíram com armas, cassetetes e gás pimenta nas mãos. Tiros de borracha foram disparados contra todos. Dois deles acertaram duas mulheres.

Mas foi com um cassetete que conseguiram calar a voz das mulheres. Uma delas apanhou muito e, por mais que as pessoas implorassem para que o policial parasse, ele prosseguiu.

A vítima, que não quis ser identificada, foi espancada até ficar caída no chão. O socorro tardou a chegar e ela foi levada por outra visita até o Pronto-Socorro.

Os serviços de atendimento a emergências, como o Samu, temiam ser atacados e, para trabalhar, pediam a segurança da Polícia Militar.

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