Nacional

Governo nega ter feito acordo com PCC

Por Mary Persia e Tatiana Fávaro | Folhapress
| Tempo de leitura: 4 min

São Paulo - O comandante-geral da Polícia Militar (PM), coronel Elizeu Eclair Teixeira Borges, negou ontem que o governo tenha feito um acordo com o líder do PCC, Marcos Willians Herba Camacho, o Marcola, para que a série de rebeliões e ataques ocorrida no Estado terminasse. Ele, porém, admitiu que houve uma "conversa" com o preso no domingo.

A reportagem apurou que participaram da reunião a advogada de Marcola, Iracema Vasciano; o comandante da PM Ailton Araújo Brandão, lotado na região de Presidente Prudente; o corregedor Antônio Ruiz Lopes, representante da Secretaria Estadual de Administração Penitenciária (SAP); e o delegado da Polícia Civil José Luiz Cavalcante.

Durante entrevista coletiva realizada ontem, o coronel admitiu a presença de apenas um policial militar e da advogada na reunião. Embora admita que seu subordinado estava na penitenciária, ele disse desconhecer o teor do que chamou de "conversa". "No domingo, após dezenas de atentados e policiais mortos, minha preocupação como comandante passou a léguas de distância disso", afirmou o comandante-geral da PM.

O coro que nega o acordo havia sido iniciado ainda pela manhã pelo governador Cláudio Lembo (PFL) e pelo delegado-geral da Polícia Civil de São Paulo, Marco Antônio Desgualdo. "Eu nunca fiz acordo ninguém, principalmente com bandido", disse nesta terça o delegado-geral.

O encontro entre Marcola e a advogada dele é incomum no Regime Disciplinar Diferenciado (RDD), ao qual ele está submetido desde o último sábado, quando foi levado para a penitenciária de Presidente Bernardes (589 km a oeste de São Paulo), considerada a mais segura do País.

O regime restringe as visitas recebidas pelos presos, o acesso à televisão, a revistas e a jornais, e prevê apenas uma hora por dia fora das celas - para o banho de sol. Pelo telefone e por e-mail, a reportagem questionou o governo estadual -responsável pela administração da penitenciária- sobre a visita, mas não obteve resposta.

Suspeitas

Marcola é o principal suspeito de comandar os ataques contra forças de segurança paulistas - 215 no total - que mataram 115 pessoas desde a última sexta-feira. No mesmo período, rebeliões simultâneas atingiram mais de 80 unidades prisionais. Menos de 24 horas depois da conversa entre Marcola e a advogada, todas haviam terminado.

Reportagem publicada pela "Folha de S. Paulo" ontem mostra que, por telefone celular, líderes da facção criminosa determinaram a presos e membros do PCC do lado de fora das cadeias que interrompessem a onda de violência.

Segundo o reportagem apurou, o preso Orlando Mota Júnior, 34 anos, o Macarrão, havia sido um dos principais interlocutores do governo - ele está na penitenciária 2 de Presidente Venceslau (620 km a oeste de São Paulo) desde a última quinta-feira. Macarrão e outros líderes do PCC deram a ordem de cessar os atentados.

Reação

O comandante-geral da PM voltou a dizer nesta terça disse que o medo e a insegurança que marcaram o dia anterior e alteraram a rotina da cidade de São Paulo foram provocados principalmente por boatos. "O que preserva a vida é o medo", defendeu.

Borges disse que não irá desmobilizar a polícia que está nas ruas e que "a caça continua". Desde segunda, 71 suspeitos de envolvimento nos ataques foram mortos em supostos confrontos com a polícia -19 deles somente na madrugada desta terça.

Os ataques também deixaram 40 mortos -entre policiais, guardas e agentes penitenciários. Durante todo o ano passado, 22 policiais morreram em combate e 40 enquanto estavam de folga. "Isso é uma prova de que o combate existe no dia-a-dia", disse.

Retaliação

O movimento é uma retaliação do PCC à decisão do governo estadual de isolar lideranças da facção. Na quinta-feira passada, 765 presos foram transferidos para a penitenciária 2 de Presidente Venceslau, em uma tentativa de evitar a articulação de ações criminosas.

No dia seguinte, oito líderes do PCC foram levados para a sede do Departamento de Investigações sobre o Crime Organizado (Deic), em Santana (zona norte de São Paulo). Entre eles estava o líder da facção, Marcos Willians Herba Camacho, o Marcola. No sábado, ele foi levado para a penitenciária de Presidente Bernardes (589 km a oeste de São Paulo), considerada a mais segura do país. Na unidade, ele ficará sob o Regime Disciplinar Diferenciado, mais rigoroso.

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