São Paulo - O governo de São Paulo reagiu contundentemente ontem contra a cobertura dos ataques do Primeiro Comando da Capital (PCC) feita pelas TVs, que qualificou de sensacionalista. Em nota oficial, o governo acusou a Record e Band de agirem de “forma criminosa e irresponsável” por terem exibido supostas “falsas gravações com líderes de facção criminosa”.
O governador Cláudio Lembo deu declaração insinuando que suposta entrevista com Marcola, principal líder do PCC, exibida no início da madrugada de ontem pela Band, seria falsa. “Me afirmam que não houve (entrevista com Marcola). O Estado irá tomar atitudes no Poder Judiciário. A Justiça vai esclarecer”, disse.
Também ontem, a Polícia Civil abriu inquérito para “apurar responsabilidades do jornalista Roberto Cabrini e eventual apologia ao crime ou criminoso” na veiculação da reportagem. A suposta entrevista foi transmitida no “Jornal da Noite”. Cabrini aparece o tempo todo falando em um estúdio de TV com um interlocutor ao telefone, que seria Marcola.
Curiosamente, o nome Marcola não é mencionado nas manchetes do telejornal nem durante a entrevista. Assim como o SBT e Gugu Liberato agiram em 2003, quando foi ao ar uma entrevista encenada com falsos membros do PCC, a Band não se pronunciou. Cabrini não respondeu os recados deixados em seu celular.
A polícia requisitou as fitas da entrevista para fazer uma perícia e averiguar se é realmente Marcola o interlocutor de Cabrini. Ontem à tarde a juíza Isaura Cristina Barreira, do Departamento de Execuções Criminais (Decrim) do Tribunal de Justiça de São Paulo, determinou que a Rede Bandeirantes entregue nos próximos cinco dias uma cópia do material.
Nos bastidores da Band, circulava ontem versão de que uma mulher teria procurado o departamento de jornalismo oferecendo a entrevista com Marcola. A entrevista foi feita, mas a direção da emissora não teria se convencido totalmente de que era realmente Marcola quem falava.
Por precaução, a emissora não alardeou que entrevistara Marcola nem citou o nome do criminoso na apresentação da entrevista. Já a nota oficial que acusou a Band e a Record de agirem de “forma criminosa e irresponsável” foi distribuída pela Secretaria da Administração Penitenciária. “A veiculação de conversas com integrantes de facções criminosas serve tão-somente para inflamar o ânimo sensacionalista, assustando a sociedade e prejudicando as investigações realizadas pelas autoridades competentes.”
Justiça
A juíza Isaura Cristina Barreira, do Decrim (Departamento de Execuções Criminais) do Tribunal de Justiça (TJ) de São Paulo, determinou ontem que a Rede Bandeirantes envie nos próximos cinco dias uma cópia da fita da entrevista do jornalista Roberto Cabrini supostamente feita com Marcola.
Por meio de um telefone celular, Cabrini e o suposto líder do PCC falaram sobre os ataques realizados pela facção criminosa. O entrevistado afirmou que a facção determinou a realização da megaoperação porque “os direitos dos presos não foram cumpridos”.
Marcola foi levado no último sábado à penitenciária de Presidente Bernardes (620 km a oeste de São Paulo), considerada a unidade mais segura do país, e colocado sob o Regime Disciplinar Diferenciado (RDD), que estabelece normas mais rígidas para os presos.
Como o RDD pressupõe que Marcola esteja isolado, em seu despacho, a juíza determinou também que a Secretaria de Estado de Administração Penitenciária preste informações sobre o caso. Mais cedo, a secretaria havia emitido uma nota pedindo outra cópia da entrevista concedida à emissora.
Entrevista
O telefonema entre Cabrini e um interlocutor que se identificou como Marcola foi exibida na quarta-feira, no “Jornal da Noite”, da TV Bandeirantes. No final da entrevista, ele negou ter feito acordo com autoridades para encerrar os ataques: “da minha parte não (houve acordos)”, respondeu quando questionado sobre esta possibilidade. “Eles (autoridades) removeram diversos presos, feriram a lei e não pudemos usufruir de nenhum direito. Por isso acabamos tomando esta atitude, para chamar a atenção”, afirmou o entrevistado durante a conversa.
Ele também falou sobre o não-cumprimento do banho de sol dos detentos e a impossibilidade de receber visitas dos advogados. Segundo o interlocutor, a decisão de iniciar os ataques teria sido feita na sexta-feira, por diversos membros da facção. “Foi uma decisão conjunta, em que cada um deu sua opinião.”
Em uma resposta vaga aos ataques no metrô e a ônibus, o entrevistado disse: “o que foi visto foi feito”. “Os ataques pararam, foram usados para resolver uma situação quando precisamos. Mas eles (autoridades) não estão querendo parar. Estão agindo de forma brutal, matando, declarando uma guerra e esquecendo que, assim, deixam a sociedade à mercê”, disse.
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Três meses de RDD
São Paullo - O líder do Primeiro Comando da Capital (PCC) Marcos Camacho, o Marcola, permanecerá três meses preso em Regime Disciplinar Diferenciado (RDD). O prazo foi estabelecido pela Justiça de São Paulo e passa a contar desde 13 de maio, data em que o criminoso foi recolhido ao regime especial.
O juiz corregedor Carlos Fonseca Monnerat, do Departamento de Execuções Criminais (Decrim) do Tribunal de Justiça de São Paulo, entendeu que, saindo do RDD, Marcola poderia continuar as represálias e atrapalhar as investigações sobre os ataques criminosos ocorridos no estado desde o fim de semana.
No RDD, os presos têm restritos o número de visitas, o acesso à televisão, a jornais e a revistas, e o tempo de banho de sol -apenas uma hora diária. Marcola é apontado como o mandante da série de 251 ataques a forças de segurança e de 80 rebeliões de presos que atingiu diversos pontos do Estado de São Paulo desde sexta.