- Alô. Oi... Sim. Sim. Acabamos de saber que chegaram 40 carros do PCC, mas não sei se é verdade. Espera aí, tem um helicóptero passando...
... Até agora foram 159 ataques... mortos. Mais de 35 estão feridos... já duram três dias... grande São Paulo oito bancos atingidos... queimados... totalizam mais de 150 ataques... mortos e 40 feridos...
- Não vamos para a aula. Os ônibus pararam. Está bem, não vou sair. Um beijo, tchau.
... Integrantes do PCC... universidades suspenderam as aulas... Assista agora “Malhação”... são 82 mortos... os ataques continuam... eu sou lésbica, isso mesmo... 200 reféns foram soltos...
Na televisão, a cada edição extraordinária, uma retrospectiva dos últimos três dias. Não adianta mudar a emissora. As imagens iguais, os números muito próximos. Os comentários não chegam a lugar nenhum. E nós nada podemos fazer, além de proteger nossas vidas, guardados em casa e longe das janelas, de preferência.
Segundo o governador, “tudo está sob controle”. Nem a ajuda federal foi aceita. Mas como pode estar tudo sob controle com civis, bandido e policias sendo mortos? O telefone congestionado, quando dá sorte, transmite vozes afobadas e amedrontadas. Como pode estar tudo bem? Há quatro horas assisto aos noticiários e já me cansei de ver imagens dos atentados e o pânico dos civis, que fogem da capital para o interior. Faz algumas horas que o terror se espalhou pelas cidades interioranas também. Ao menos hoje o medo toca nas portas de quem mora longe dos morros.
Será tudo um grande sensacionalismo, governador? Talvez sim, já que a imprensa tanto admira esse feito. Mas como até então não se sabe o que é verdade e o que é exagero, opto por acreditar neste último, para que não surjam surpresas.
Devemos sentar e rezar? As igrejas devem estar sitiadas também. Ver a novela, como se nada estivesse acontecendo? Não dá. Provoca a sensação de que não existe tensão no ar.
Decidi acessar a internet, apesar da televisão já ter avisado que muitos sites estão a divulgar boatos. As universidades agora serão os principais alvos. Eles querem que libertem todos os presos. Mais de quinhentos bandidos fugiram da penitenciária de Americana. Os ET’s vieram a Terra para ajudar o PCC. Ao menos os Marcianos estão do lado do Estado. Parece que o governador não aceitou a ajuda deles também.
“Pedro - Só faltava essa: toque de recolher ahhh...”. “*@ndi*- Estamos em guerra!”. ”Mázinh@- Nem o Mcdonald’s está aberto”. Nicks criativos, irônicos. Ao menos informados eles estão. Mas não dá para começar uma conversa com “Oi, tudo bem?”.Ao menos hoje, não consigo. E admito que me indignou a “despreocupação” de alguns que insistiram em jogar conversa fora no messenger, ao invés de manifestar a própria indignação junto aos outros internautas, trancados a força em casa. Não está tudo bem. As pessoas estão em pânico. Eu estou em pânico, pela primeira vez na vida.
O medo das ruas faz meu coração acelerar. Enquanto as rebeliões estão nos morros, eu me indigno com a situação a qual chegamos, mas não tenho o medo fazendo-me transpirar, como hoje. Quando a CPI do mensalão marca mais um depoimento, não chego a sentir medo do futuro quando me dou conta que estamos habituados com esse tipo de desrespeito. Agora, porém, eles acabam de matar mais um policial na rua de cima. Agora eles conseguiram me fazer insegura, mostrando a fragilidade da segurança estadual.
Hoje compreendo tamanha a insegurança dos americanos após o atentado ao WTC. Somente agora sou capaz de achar que tudo não passava de uma “frescura de primeiro mundo”. Hoje no meu país, brasileiro ataca brasileiro e, ao invés de se unir, o país se divide em dois. Em que se apoiar, agora? É fechar as portas e esperar a tempestade passar. Pode ser dormindo, porque o poder de mudança não está em nossas mãos. Hoje não.
Nesta noite, muitas famílias choram a morte de inocentes. Muitas mulheres oram pela vida dos maridos, ainda que bandidos. Mas muitos brasileiros provavelmente torcem para que comece o tiroteio. Não sou a favor de mortes, por mais merecidas que sejam, mas com o pânico que a mídia me causou, os defensores dos direitos civis que me desculpem, mas cadê o nosso exército? (Ana Carolina Lahr - RG 40.761.927-6)