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Preconceito dificulta adoção tardia

Érika Pelegrino
| Tempo de leitura: 3 min

Bebê, branca e saudável. Preferencialmente, menina. Estas são as características que a maioria dos casais determina quando decidem adotar uma criança. Preconceitos como este, que permeiam a adoção, em especial no que se refere à de crianças mais velhas, denominada adoção tardia, estão sendo retomados por especialistas em razão da proximidade com 25 de maio, quando se comemora o Dia Nacional da Adoção.

Pesquisadores trabalham no sentido de lançar um olhar transformador da cultura da adoção no Brasil. O autor do livro “Adoção Tardia: Mitos, Medos e Expectativas”, psicólogo Mário Lázaro Camargo, ressalta que a transformação da cultura é o que de mais urgente há para ser feito na temática da adoção.

Em seu livro, Camargo, que também é professor de psicologia da Universidade Sagrado Coração (USC), em Bauru, e do Centro Universitário Católico Salesiano Auxilium, câmpus de Lins, traz uma pesquisa do psicólogo Maurício Ribeiro de Almeida, realizada em Bauru e Marília, que ilustra a realidade da adoção na região.

De acordo com o levantamento, em 2001, dos 133 casais aptos para a adoção, 118 queriam criança branca. Em 2002, especificamente em Bauru, o pesquisador constatou que 76,19% queriam criança branca; 72,36% desejavam que a idade fosse inferior a 2 anos; 50,79% queriam menina e 61,90% não tinham interesse em criança portadora do vírus da aids. Os percentuais locais, de acordo com Camargo, correspondem aos nacionais.

As adoções efetuadas no ano passado em Bauru, de acordo com dados da Vara da Infância e Juventude, confirmam a pesquisa, com exceção do sexo da criança adotada. Das 31 adoções realizadas em 2005, 14 foram de meninas e 17 de meninos. Quanto à idade foram adotados 17 bebês com idade até 1 ano, quatro crianças de 2 anos, quatro de 3 anos, duas de 4 anos, uma criança de 6 anos, duas crianças de 7 anos e uma criança de 9 anos. Quanto à cor, 24 eram brancas e sete eram pardas, nenhuma negra.

Com base na pesquisa, Camargo avalia que as crianças negras, com mais de 2 anos e portadoras de algum tipo de necessidade especial são as consideradas não adotáveis no contexto social brasileiro. “Isto não ocorre no Exterior, onde os casais adotam crianças com características físicas bem diferentes das deles”, afirma Camargo. As crianças consideradas “não adotáveis” permanecem longo tempo em instituições, onde muitas, segundo o psicólogo, atingem a maioridade. Estas crianças, ressalta Camargo, sofrem múltiplos abandonos. “O abandono da família biológica, que por motivos socioeconômicos ou ético-morais são impedidas de manter os filhos; o abandono do Estado que, por meio das limitadas legislações e deficitárias políticas públicas, tem os braços engessados para o acolhimento de seus órfãos, e o abandono da sociedade, que ainda não entendeu o sentido do termo inclusão”, explica. Alertar para os mitos que sustentam a rejeição à adoção de crianças mais velhas é uma das tarefas urgentes que precisam ser assumidas para mudar a realidade de crianças que estão se tornando adultas, sem nunca ter conhecido o convívio familiar.

Na Casa da Criança, em Bauru, instituição que recebe crianças com até 12 anos, essa realidade pode ser confirmada. Sem conseguir um lar adotivo por serem consideradas “velhas”, as crianças completam 12 anos e são transferidas para outras instituições. A presidente, Sônia Tereza Melo Saab, afirma que estes casos não constituem maioria, mas acontecem.

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