Ontem pela manhã, um tamanduá foi levado ao Zoológico Municipal de Bauru para tratamento. Ele acabara de ser atropelado na rodovia Comandante João Ribeiro de Barros, que liga Bauru a Jaú. Horas mais tarde, um veado-catingueiro foi encontrado atrás da base do Policiamento Rodoviário, na Marechal Rondon. Com uma fratura exposta numa das pernas traseiras e com sangramento na boca, a fêmea morreu por volta das 16h20.
O corretor de seguros Delton dos Santos Rosa, 34 anos, foi um dos primeiros a avistar o animal. Ele estava na empresa de um amigo quando viu o veado atravessando a rodovia. “Era por volta das 15h30 quando eu vi o animalzinho. Ele estava com a perna machucada. Juntou muita gente em volta e ele deve ter ficado agitado, porque começou a pular muito”, lembra. Segundo Delton, um chapa - pessoa que carrega e descarrega caminhões - que trabalha na rodovia afirmou ter visto um carro batendo na traseira do veado-catingueiro.
Assim que foi acionado, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) foi até o local socorrer o veado. De acordo com Lélia Lourenço Pinto, chefe do escritório regional do instituto, o bicho foi levado ao zoológico, mas como o veterinário não estava no local, foram até um clínica particular. A fêmea não resistiu e morreu pouco depois. Além dos ferimentos, Lélia explica que os veados, quando estão em situação de captura, sofrem um grande estresse, liberando muita adrenalina e ácido láctico na corrente sangüínea.
“Os veados têm um problema muito sério que se chama miopatia de captura. É um problema muscular. Ele deve ter saído de uma das matas e ficou perdido. Ali tinha trânsito, tinha gente e ele ficou inquieto. Os veados têm um nível de estresse altíssimo”, explica. Lélia acredita que o animal já estaria em perímetro urbano há alguns dias, pois apresentava arranhões e machucados que poderiam ter sido causados por cercas.
A responsável pelo Ibama aponta que o número de animais atropelados nas rodovias da região vem crescendo a cada ano. “A gente está tentando acudir tudo isso. O zoológico está se desdobrando. O Ibama está ajudando com recursos financeiros”. Visando diminuir os acidentes, o instituto está programando uma reunião com a concessionária que administra as rodovias da região. “Precisamos discutir o que pode ser feito para minimizar. Na Rondon, em alguns pontos foram colocadas placas avisando da presença de animais silvestres”.
Recentemente, três onças pardas foram atropeladas na região. O último acidente aconteceu no início do mês em Oscar Bressani, município próximo a Ourinhos. Além do tamanduá e do veado, uma coruja considerada rara também foi levada ao zoológico. Com as asas muito machucadas, a ave chegou de Cabrália Paulista e está sendo tratada no parque. Segundo Lélia, ainda não existe previsão de que a coruja voltará a voar.
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Sobrevivência
Um dos motivos que podem explicar o aumento de acidentes envolvendo animais nas rodovias é o crescimento da população de animais silvestres na região, devido à proibição da caça. Esse, segundo Lélia Pinto, do Ibama, é considerado um motivo otimista. Mas a realidade pode ser mais dura. Com a expansão da área de agricultura, o homem avança sobre o habitat dos animais. Sem alternativa, eles se deslocam em busca de comida, tendo de andar mais e se deparando com as rodovias.
Luiz Pires, diretor do Zoológico de Bauru, explica que a estação de seca prejudica ainda mais, principalmente as espécies de veados, que procuram pastagens verdes para a alimentação. “Além disso, as rodovias estão melhores, duplicadas e com um trânsito mais rápido. É muito mais difícil para um motorista desviar ou evitar a colisão”, avalia.
Outro fator destacado pelo diretor é sobre a preservação das propriedades rurais. Pela lei, os produtores devem manter 20% da mata nativa do local, criando ilhas de vegetação.
“São áreas pequenas para a quantidade de fauna que abrigam. Por isso, os animais se deslocam entre essas ilhas, e nesses corredores, podem se deparar com alguma rodovia”, observa.