Além de ser a resposta às preces da mulher casada, como conta a piada, George Clooney é uma espécie de Robin Hood de Hollywood: rouba dos ricos (leia-se bobagens que aceita fazer para grandes estúdios por cachês que batem nos US$ 20 milhões) para dar aos pobres (filmes independentes que financia ou viabiliza por meio da produtora que divide com o amigo Steven Soderbergh, diretor e pioneiro do cinema independente contemporâneo).
Neste ano, ele teve seu trabalho reconhecido no Oscar e no Globo de Ouro pela produção e atuação em “Syriana” e pela direção deste “Boa Noite e Boa Sorte”, que chega às locadoras. Se pode alienar o espectador médio local por tratar de um episódio excessivamente norte-americano, merece ser assistido pelos valores universais que defende, como a liberdade de imprensa e o direito de discordar, e pelo resgate histórico que faz para as novas gerações de um triste período dos Estados Unidos, o macarthismo. Ambas as ações ganham mais importância quando se leva em conta o desastre democrático que é a segunda administração de George W. Bush, com sua própria caça às bruxas, desprezo pela imprensa livre e independente e diminuição consentida das liberdades individuais em nome de uma “guerra ao terror” duvidosa.
“Boa Noite e Boa Sorte” trata da história verídica do jornalista Edward R. Murrow (1908-1965), que no começo dos anos 50 apresentava o programa semanal “See It Now” (veja agora) na CBS, então uma das três principais emissoras de TV norte-americanas. À época, com poucas exceções, a grande imprensa norte-americana em geral, mas a televisiva principalmente, pisava em ovos na cobertura do senador republicano Joseph McCarthy (1908-1957), do Estado do Wisconsin, que, via Subcomitê Permanente de Investigações do Senado, promovia uma verdadeira Inquisição contra o que ele chamava de “ameaça vermelha”.
Murrow foi um dos que teve coragem de desafiá-lo, de maneira séria e objetiva, contrapondo fatos às maquinações do celerado político. Isso acabou custando seu emprego, mas deixou uma boa história e um bom exemplo, que agora Clooney resgata. Os motivos do ator são dois. Seu pai, que também sofreu por ser um jornalista combativo na mesma época de Murrow, o considerava o paradigma da imprensa livre. E Clooney pretende cada vez mais diversificar a carreira dirigindo filmes – “Boa Noite e Boa Sorte” é seu segundo longa. Pois tem futuro o menino.
No comando do filme, ele só toma decisões acertadas. Uma delas é optar pelo preto-e-branco, em vez do colorido, o que confere a desejada sobriedade que o diretor queria. Outra é a escolha do elenco, raras vezes tão acertada. Destacam-se principalmente o personagem principal, interpretado pelo grande e freqüentemente injustiçado ator David Strathairn, e seu chefe, William Paley, vivido pelo veterano Frank Langella, sempre contido.
Mas o trunfo do filme é usar cenas de arquivo do verdadeiro Joseph McCarthy nas seqüências em que o senador aparece, em vez de optar pelo caminho fácil de um ator que provavelmente não resistiria à tentação de fazer um vilão caricato de cinema mudo. McCarthy em ação, McCarthy como McCarthy, é mais caricato e mais vilão. De resto, o filme peca somente em um aspecto, resultado talvez da inexperiência de George Clooney: com exceção do trio acima, os outros personagens são mal desenvolvidos e aparecem um pouco perdidos na trama. Nada que mais alguns anos e filmes atrás das câmeras não resolvam.