O senhor Fátimo escreveu há alguns dias nesta coluna, afirmando sua crença de que tudo (tudo!) o que está errado seria culpa do rock. Além disso, Fátimo vinculou o rock ao vandalismo e também, numa estranha elucubração, às notas baixas nos vestibulares (e ainda aos funkeiros, se eu entendi bem, os do Rio de Janeiro).
Pois bem. Sou professor desde 1999 e jornalista desde 2004. Nunca ouvira antes uma bobagem tão grande. Nunca tirei 4 (é a média dos vestibulares, segundo Fátimo) em vestibular algum e minha casa está repleta de discos de rock. Também nunca vi vestibular com tanta gente tirando próximo de 4, pois a maioria das provas tem nota máxima em 80, 100, ou outros numerários, para tornar mais fácil os critérios de desempate.
Freqüentemente, os processos de seleção das universidades mais conceituadas do país usam letras de músicas de rock nas provas de redação, literatura, interpretação de texto, atualidades, gramática e, por ventura, até nas de geografia e história. Portanto, Fátimo erra quando diz que o rock é culpado pelas notas baixas, pois quem conhece rock (e música em geral) tem ferramentas para compreender melhor o mundo contemporâneo.
Além disso, o rock nasceu de uma fusão de ritmos e estilos musicais, que aborda desde batuques africanos até o country trazido aos Estados Unidos pelos imigrantes irlandeses. Também é o rock objeto de estudo da história, da antropologia, das ciências sociais e de outras disciplinas, contribuindo com veemência para as investigações sobre as culturas brasileira recente (nem tão recente assim), norte-americana, européia, enfim, sobre a cultura mundial.
O rock deu ao mundo pérolas como Yesterday, dos Beatles, só para citar uma. O rock ajudou a trazer os ideais de paz, amor e liberdade a uma época que tanto precisava desses ideais, e provou que a juventude tem voz para contestar e manifestar sua opinião sem o uso da força, mesmo contra uma onipotência bélica, hipócrita e nociva; mesmo que tenha que ir contra os “interesses” do próprio país. O rock já organizou imensos festivais em benefício de populações necessitadas e em favor da paz, coisa que o João Gilberto não conseguiria nunca.
Fátimo errou ao condenar uma pessoa que, pelo o que eu entendi, está querendo só colocar ordem (não a Ordem dos Músicos) operacional no rock, se é que isso existe. E errou mais feio ainda quando disse que a juventude seria melhor se, ao invés de rock, ouvisse Milton Nascimento, Djavan e Martinho da Vila, pois a juventude já os ouve. O próprio Milton começou influenciado pelo rock progressivo.
Senhor Fátimo, eu daria nota 4 para as “verdades irrefutáveis”. Essas “verdades”, que nos soam tão alvissareiras... essas sim é que são perigosas. (Luís Paulo C. Domingues - RG 17115765-5)