Economia & Negócios

Setor quer reduzir custos e carga tributária

Lucien Luiz
| Tempo de leitura: 4 min

Nenhuma proposta de reforma foi concluída durante o 3º Congresso da Indústria, realizado na última semana em São Paulo. No entanto, já é certo que os candidatos ao governo do Estado e da Presidência da República terão de assumir um compromisso sério a respeito do corte de gastos públicos e também do abrandamento da carga tributária na área industrial.

Essas duas questões, embora não oficialmente, foram consideradas algumas das principais deficiências que diminuem ou freiam o crescimento da indústria no Brasil.

Antonio Delfim Netto, presidente do Conselho Superior de Economia da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), foi incisivo nessas instâncias. Ele disse que apenas a diminuição tarifária aliada à queda dos juros e o corte drástico das despesas públicas podem, ainda a longo prazo e associadas a outras medidas secundárias, permitir a retomada do desenvolvimento econômico do País.

“Com 36% é muito pouco provável que o Brasil volte a crescer. O governo tem um nível de produtividade muito mais baixo do que o setor privado. Quando tira recurso da área privada e leva para si, reduz o crescimento. Isso significa a transferência de recursos do setor mais produtivo para o menos produtivo”, enfatizou.

Delfim sugere uma taxa de juros de até 26%, pois lembrou durante seu discurso aos empresários no congresso, que o País manteve esse índice em seus momentos de maior crescimento. No entanto, ele estima que os juros só cairão para este patamar num prazo de oito anos.

“O investimento público bem realizado multiplica a produtividade do setor privado. Só assim conseguiremos crescer”, salienta.

Aref Farkouh, diretor de comunicação e marketing da Fiesp, concorda com Delfim. Para ele, os juros altos, câmbio baixo e entraves que começam desde a infra-estrutura e na burocracia da exportação e importação, têm contribuído fundamentalmente para a estabilidade do País no campo do desenvolvimento industrial/econômico.

“Não adianta ter um País com mão-de-obra relativamente barata, se existem sobre ela encargos sociais altos, se o financiamento dos equipamentos for inacessível. É mais importante dispor de capital barato, como nos países do Oriente, a ter mão-de-obra barata nessas condições”, observa.

Farkouh, entretanto, admite que as propostas de reforma não oferecem possibilidades de resultados “do dia para a noite”. Embora tracem novas expectativas, principalmente no sentido de geração de emprego e renda, a implementação, segundo ele, também não é fácil.

“Essas propostas são, todas, de longa maturação. Seus efeitos práticos e concretos nas taxas do crescimento ainda demoram um tempo (para proporcionar o desenvolvimento) após a sua concretização. Pelo menos, se de fato forem consideradas e aplicadas, manteremos uma taxa de desenvolvimento que não nos envergonhará quando nos compararmos com outros países da América e do mundo”, aponta.

Simonelli critica infra-estrutura

O diretor do Departamento de Ação Regional (Depar) da Fiesp em Bauru, José Luiz Miranda Simonelli, aponta as dificuldades com infra-estrutura como um dos fatores que mais têm emperrado o desenvolvimento industrial na região de Bauru.

Ele ressalta que, embora as estradas e rodovias do Estado de São Paulo tenham a melhor qualidade do País, o transporte ferroviário deveria ser melhor aproveitado, inclusive em Bauru, que possui linha férrea com extensão direta ao Porto de Santos, no litoral. Para ele, essa alternativa poderia ser útil no incentivo à vinda do gás natural para o município, o que atrairia novos empreendimentos industriais.

O aeroporto foi outro ponto citado por Simonelli, que espera por uma regularidade maior na oferta de vôos. Segundo ele, a restrição de horários e o alto custo da viagem têm prejudicado muitos negócios na cidade e onerando quem precisou do serviço.

“Tudo isso pode gerar economia de frete, economia na matriz energética com o uso do gás natural, enfim, uma série de benefícios. O trilho Bauru-Santos é um diferencial, porque é atraente para investimentos. Sem contar que o município tem boa posição geográfica, abundância de água com os lençóis (freáticos) de Bauru e Botucatu. No entanto, é preciso melhorar e otimizar toda essa estrutura”, analisa.

A carga tributária também foi alvo de críticas de Simonelli. “A carga tributária brasileira é uma das mais elevadas do mundo. Seus efeitos não são prejudiciais apenas em Bauru, mas em todo País. Além disso, o governo, apesar desses tributos elevados, não apresenta uma contraprestação de serviços em outros setores, como na saúde, educação, segurança. Todos esses recursos gerados através da carga passam a ser perdas.”

Mas Simonelli destacou a atenção do governo em relação aos esforços da Fiesp para defender o mercado industrial brasileiro no comércio exterior contra os preços predatórios chineses. Segundo ele, uma equipe de defesa comercial coordenada pela Fiesp está prestando orientações às empresas prejudicadas com as relações comerciais chinesas.

Além de Simonelli, que esteve no congresso em São Paulo para participar de algumas mesas de discussões pela Fiesp de Bauru, a cidade também foi representada por Sérgio Togashi, Luiz Henrique Cardoso Patrício e Márcio Rocha, todos integrantes do Depar/Bauru.

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