São Paulo - Três anos e seis meses após terem confessado planejar e assassinar o casal Richthofen, os ex-namorados Suzane e Daniel Cravinhos vão se reencontrar pela primeira vez hoje, a partir das 13h, quando terá início um dos julgamentos mais aguardados dos últimos anos. Mas os dois, que na época alegaram ter cometido o crime por “amor”, agora estarão em lados opostos: um culpará o outro pela idéia do assassinato.
Suzane, Daniel e o irmão dele, Cristian, confessaram ter planejado e executado o assassinato do casal Marísia e Manfred von Richthofen em 30 de outubro de 2002. Eles foram mortos com golpes de barras de ferro enquanto dormiam em casa, no Brooklin. A confissão só veio à tona nove dias após o crime, quando a polícia flagrou Cristian com parte do dinheiro roubado da casa dos Richthofen.
A Promotoria pedirá pena para cada um que pode chegar a 50 anos (embora, por lei, eles não possam ficar mais de 30 anos na prisão). Eles são acusados de duplo homicídio triplamente qualificado - motivo torpe (ficar com o patrimônio do casal), sem a possibilidade de defesa das vítimas (Marísia e Manfred dormiam no momento do crime) e meio cruel (mortos a pauladas). Os advogados de Suzane vão alegar que a garota foi induzida a planejar o crime após pressão psicológica de seu namorado.
O advogado Mauro Otávio Nacif, contratado por Suzane von Richthofen para defendê-la da acusação de ter planejado e participado do assassinato dos pais apenas quatro dias antes do júri, disse que sua preferência na escolha dos jurados será por mulheres. Ele defende a tese de que Suzane foi pressionada por seu então namorado e réu confesso do crime, Daniel Cravinhos, a planejar a morte dos pais.
Para o advogado, o fato de Suzane ter escolhido perder a virgindade com ele aos 16 anos mostra que o vínculo entre os dois era muito forte. O assassinato ocorreria três anos depois.
O advogado diz que a virgindade era um tabu na casa de Suzane, que recebeu uma educação rígida graças à ascendência alemã e cuja mãe se casou virgem. Ela perdeu a virgindade no quarto de Daniel, segundo Nacif. Ele relata que, por causa do jovem, que não queria usar preservativos, ela se submetia a tomar injeções mensais de anticoncepcionais. “Ela tinha horror às injeções, mas ela foi ao ginecologista, pagou pelo ginecologista e vomitava após as aplicações só para agradar o namorado.”
O criminalista diz que a preferência por mulheres na composição do júri vem do fato de que ele pretende comprovar o vínculo entre Suzane e Daniel com base na “primeira vez” dela. “Só mulher entende a perda da virgindade, aquelas circunstância. Só uma mulher entende o domínio do homem por causa do sexo. O homem não dá a menor bola para a virgindade.”
Às 13h, entrarão na sala do 1.º Tribunal do Júri as 21 pessoas convocadas para serem juradas. Através de uma urna, sete serão sorteados. A defesa e a acusação poderão recusar três nomes. O juiz também. A fase seguinte é a do interrogatório dos réus, que responderão a perguntas do juiz, da acusação e dos advogados de defesa. Não há limites de questões ou de tempo para essa etapa.
Na sexta-feira passada, a pedido dos advogados de Suzane, o Tribunal de Justiça (TJ) de São Paulo decidiu proibir o registro de imagens e sons do júri. A sessão será acompanhada apenas por cerca de 30 jornalistas. Outro pedido dos advogados de Suzane relativo à imprensa foi negado. Eles queriam impedir a exibição de uma entrevista concedida por ela à Rede Globo no último mês de abril, quando estava em liberdade provisória.
De acordo com Nacif, a entrevista foi totalmente “artificial”. Durante a gravação, dois advogados de Suzane, seu ex-tutor legal Denivaldo Barni e Mário Sérgio de Oliveira, foram flagrados orientando a cliente a chorar e a demonstrar fragilidade diante das câmeras. Na sexta, eles foram absolvidos pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de São Paulo da acusação de ter infringido a ética profissional.