Qual a ligação entre reggae, baião, blues, rock, samba e batidas eletrônicas? A inventividade de Zeca Baleiro. De baladas românticas ao techno xaxado, o artista encara ritmos diversos, sem perder a poesia de suas letras. Com o quinto CD lançado em 2005 pela MZA/Universal, “Baladas do Asfalto & outros blues”, Zeca rebobina a carreira no show desta noite no Serviço Social do Comércio (Sesc).
Aos palcos, Zeca sobe acompanhado pelos músicos do primeiro escalão Tuco Marcondes (violões, dobro e guitarra), Fernando Nunes (baixo e violão), Kuki Stolarski (bateria e percussão) e Adriano Magoo (teclados e acordeon). O quarteto promete um show quente com novas versões de sucessos como “Vô Imbolá”, “Telegrama”, “Meu Amor Meu Bem Me Ame” e “Mamãe Oxum”, além das recentes “Alma Nova” e “Flores no Asfalto”.
A retrospectiva da carreira marca também o lançamento do trabalho de Zeca Baleiro em DVD. Com os shows de todas as turnês registrados, o músico inaugurou em dezembro de 2004 a trilogia com o primeiro DVD “PetShopMundoCão”, seguido de “Líricas” e do fresquinho “Vô Imbolá”, todos pelo selo MZA/Universal. O sucesso da parceria com Fagner também resultou no DVD “Raimundo Fagner e Zeca Baleiro”, gravado no Canecão e lançado pela Indie Records.
Poeta, produtor, compositor e músico, o maranhense se aventurou pelo ramo empresarial no ano passado, lançando o selo Saravá Discos em parceria com sua empresária Rossana Decelso. Com o projeto, foram produzidos dois CDs: “Ode Descontínua e Remota para Flauta e Oboé - de Ariana para Dionísio” e “Cruel”.
Com cinco discos de ouro (“Por Onde andará Stephen Fry?”, “Vô Imbolá”, “Líricas”, “Perfil” , “Raimundo Fagner e Zeca Baleiro”), três prêmios “Sharp” em 98 (categoria pop rock: melhor música, melhor disco e revelação), duas indicações para o Grammy Latino (“Melhor Álbum Pop”/2000, “Melhor Álbum Pop Contemporâneo”/2003), e “Melhor Cantor” pela APCA (98 e 2003), Zeca vem pela terceira vez ao Sesc Bauru, sendo que a última passagem, em 2004, resultou na música “Queda”. Para saber mais sobre esse episódio e sobre os projetos do cantor, leia abaixo a entrevista concedida por e-mail ao JC Cultura.
JC - No último show realizado em Bauru, há cerca de dois anos, você se machucou no ônibus vindo à cidade. Foi grave o acidente e como conseguiu fazer a apresentação até o final?
Zeca Baleiro - Ih, foi uma loucura. Um acidente besta em que quebrei uma costela e um osso da face. Fiz o show no sacrifício, mas foi um grande show. No dia seguinte, acordei me debatendo de dor, sem poder me mover. Fiquei um mês parado, no estaleiro. Até fiz uma música sobre o episódio, chamada “A Queda”. Se lembrar da letra, dou uma canja dela aí.
JC - O disco “Baladas do Asfalto e Outros Blues” está mais introspectivo e também carregado de poesia. Isso é reflexo de acontecimentos da vida pessoal ou/e é um sinal de amadurecimento?
Zeca Baleiro - Nenhuma das duas coisas necessariamente. Apenas resolvi compilar num mesmo disco canções de temáticas afins, com uma certa pegada rock’n’roll. Não estou especialmente introspectivo neste momento, nem sei dizer se amadureci. É certo que envelheci, pois em abril deste ano fiz 40.
JC - O que o levou a lançar o selo Saravá Discos e quais as perspectivas com o novo projeto?
Zeca Baleiro - Vontade de realizar projetos paralelos, sem vínculos com gravadoras, apenas por prazer. Lançamos dois discos no início do ano: “Cruel”, CD póstumo do compositor capixaba Sérgio Sampaio, e outro em parceria com a poeta paulista Hilda Hilst, com participação de dez cantoras, entre elas Bethânia, Zélia Duncan, Ná Ozzetti, Rita Ribeiro e Mônica Salmaso.
JC - Como produtor e músico, quais são os planos para este e o próximo ano?
Zeca Baleiro - Estou produzindo dois CDs, um de Vanessa Bumagny, nova e talentosa compositora paulistana, e outro de um compositor maranhense já falecido, da velha guarda, chamado Lopes Bogéa, uma grande figura. Além disso, gravarei este mês o DVD do novo show, e começo a preparar um disco infantil para o ano que vem.
JC - Em seu site, você escreve sobre política e deixa clara sua preferência pela reeleição do presidente Lula. Na sua visão, quais foram os avanços com a administração do PT?
Zeca Baleiro - Tendemos a ter uma visão muito crítica sobre os governos, mas muito superficial também. Não quero virar defensor do governo Lula, até porque, sob muitos aspectos, ele é indefensável. Política é um mal necessário, políticos também. Entre votar no Lula ou no Alckmin ou qualquer outro nome, fico com Lula, com a sua história, e assim me sinto com direito de cobrá-lo. Não preciso aderir integralmente a nenhum político ou ideologia. O governo Lula tem tido avanços em vários setores, mas agora as pessoas só têm olhos para essas denúncias de corrupção que ganharam as páginas dos jornais. Hipocritamente, é bom dizer, pois todos sabem que havia corrupção no governo FHC também, como há em todos aliás, infelizmente.
JC - O que tem escutado e lido atualmente?
Zeca Baleiro - Estou lendo “Crônicas”, do Bob Dylan, e um livro de ensaios sobre arte e poesia, do Ferreira Gullar, ambos muito interessantes. Não tenho disciplina para ler. Vou lendo o que me cai à mão. Quanto a músicas, só tenho ouvido meus próprios projetos. E muita música portuguesa, pois tenho planos de lançar um CD em Portugal só cantando compositores de lá, talvez também no ano que vem.
• Serviço
Zeca Baleiro se apresenta hoje, às 21h, na área de convivência do Sesc (avenida Aureliano Cardia, 6-71). Ingressos R$ 30,00 e R$ 15,00 (matriculados, estudantes com comprovante, professores da rede pública e maiores de 60 anos). Mais informações: (14) 3235-1751.