Lençóis Paulista - A população do bairro Jardim Primavera, em Lençóis Paulista (43 quilômetros de Bauru), está alarmada desde às 16h20 de anteontem, quando Marcos Roberto dos Santos, 32 anos, morreu em confronto com a Força Tática de Bauru na casa 21 da rua Pedro Antônio Ramirez. Um comerciante de um minimercado próximo da rodovia Marechal Rondon (SP-300) foi taxativo ao afirmar ontem que recebeu toque de recolher dos bandidos do bairro. Alarmado com a confusão, não quis se identificar .
“Não deixa tirar foto porque se não vocês saem e sobra pra mim porque os caras vêm aqui”, declarou. Segundo o comerciante, ele apenas se sentiu seguro para abrir as portas do estabelecimento após as 17h. O comércio da avenida Luiz Boso, principal acesso do bairro pela rodovia Marechal Rondon (SP-300), estava aberto após as 18h com a população circulando pelas ruas e adultos e crianças na frente de suas residências, como é de costume neste horário.
Uma moradora, que não quis se identificar, disse que só deixou a filha ir para a Escola Prefeito Ezio Paccola, no bairro, porque tinha que trabalhar. Porém, às 16h, passou na escola e pegou a menina de 8 anos que em dias normais estuda até 17h30. “A direção ligou falando que podia buscar mais cedo. Na classe dela são 32 crianças, mas ela disse que só foram sete para a escola. Aqui não está seguro porque a morte afetou o bairro”, lamenta a moradora.
Outra moradora, que pediu anonimato, acrescentou que a repercussão dos fatos só aumenta a discriminação da sociedade contra o Jardim Primavera. “Já não tem emprego e falando que mora no Primavera fica mais difícil, porque ninguém quer dar emprego para quem mora aqui”, desabafou.
O casal, que teve a moradia invadida por Marcos Roberto Santos e pelos policiais, está abalado. Ontem, não quiseram falar sobre os momentos de pânico vividos anteontem. A desconfiança faz com que o casal atenda quem bate à porta da residência, observando antes pela janela quem está no portão.
O comandante da 5.ª Companhia da Polícia Militar de Lençóis, tenente Alan Terra, explicou que anteontem, por volta das 19h, houve interrupção no fornecimento de energia pela desativação de um transformador, propositadamente danificado.
“Um objeto contundente provocou a ruptura da transmissão de energia. A CPFL restabeleceu a transmissão em cerca de 15 a 20 minutos depois”, garante. Ele esclarece que o corte de luz ocorrido durante a madrugada foi programado pela Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL) e atingiu vários bairros, inclusive o Jardim Primavera. Durante no enterro de Santos, parentes e amigos, levantaram a hipótese da própria PM ter interferido no apagão.
Segundo o tenente, o corte da energia na madrugada praticamente não foi percebido pela comunidade.
A proximidade com a rodovia Marechal Rondon (SP-300), segundo Terra, favorece a ação do tráfico de drogas no Jardim Primavera. Ele avalia que não é uma exclusividade do Jardim Primavera problemas com segurança pública “Todavia, a proximidade com a rodovia sugere que alguns problemas típicos, notadamente o tráfico de entorpecentes, sejam favorecidos”, salienta.
Alguns moradores do Jardim Primavera, amigos e familiares de Marcos Roberto dos Santos questionaram a maneira como o policiamento vem atuando no bairro. “Temos que mostrar para a população paulista que as suas polícias têm condições de garantir a segurança pública. Realmente uma série de operações foram intensificadas a partir desse momento (ataques do PCC)”, explica.
Sepultamento
Marcos Roberto dos Santos foi sepultado ontem às 17h no cemitério Paraíso Parque da Colina. Antes, ele foi velado no Velório Municipal, distante do local do enterro. O coveiro da Prefeitura de Lençóis Paulista Antônio de Campos Belo disse que o velório transcorreu sem nenhum distúrbio.
Muito revoltados com a morte de Marcos, amigos e familiares manifestaram dúvidas sobre como se deu o confronto com a Polícia Militar. O soldador José Galdino dos Santos, 39 anos, um dos seis irmãos de Marcos, tem certeza que ele não estava armado e nem portava entorpecentes como foi divulgado pela Polícia Militar.
O tenente Alan Terra, garante que foi encontrado uma quantidade de crack em um dos bolsos de Marcos. Conforme Terra, a droga foi apreendida com a arma, um revólver calibre 32, de seis tiros, e a munição. O tenente ressalta que todo o procedimento da ocorrência será investigado pela corregedoria da PM. “Foi instaurado um inquérito policial militar que corre paralelo ao inquérito da Polícia Civil. Esses dois procedimentos garantem a transparência da atividade pública. Se for detectado abuso os policias respondem na medida em que praticaram estes abusos”, relembra.
A versão dos PMs é que Marcos efetuou dois disparos que “picotaram” - os projéteis não teriam deflagrado. Então, um policial militar teria efetuado o tiro que atingiu Marcos na região abdominal, do lado esquerdo. Ele foi levado pelos PMs para o hospital.
Outra versão questionada pelos parentes é o fato de Marcos já ter dado entrada morto. Segundo Terra, ele teria morrido durante a cirurgia.
José confirmou que Marcos já cumpriu pena por furto e resistência à prisão em penitenciárias de Bauru e Lucélia. Entretanto, garantiu que atualmente ele estava trabalhando no corte da cana. O irmão ainda lembra que ele era casado e que sua esposa está grávida de sete meses, fato que também aumentou a revolta de amigos e parentes. Amigos de Marcos que estavam no enterro e residem no bairro mandaram um aviso. “Queremos paz. Nosso negócio é outro”, sentenciou um dos jovens.