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Dicionário teen

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 12 min

Eles já não são mais crianças, mas ainda não se tornaram adultos. Nesse importante período de transição que é a adolescência, educar filhos não é tarefa fácil e na maioria das vezes exige atenção especial dos pais.

A tarefa torna-se mais difícil porque parte dos adolescentes passa por conflitos, períodos de instabilidade emocional e processos de auto-afirmação. Se por um lado eles se refugiam no quarto e encurtam o diálogo com os pais, por outro valorizam o grupo de amigos e costumam se expressar de forma barulhenta em público.

Para os pais, a participação em festas, os namoros e, não raramente, a mudança do visual para se adequar ao figurino da tribo também se mostram situações complicadas de se lidar.

Pelo fato desse cenário envolver tantas mudanças, muitos pais ficam perdidos em relação à melhor forma de se lidar com o filho ou filha adolescente, aponta a psicóloga e terapeuta familiar carioca Maria Tereza Maldonado.

Com mais de 35 anos de prática clínica e autora de diversos livros sobre relacionamento familiar, infância e adolescência, ela dedica grande parte de sua carreira estudando o comportamento humano. Sua última obra, “Cá Entre Nós – na Intimidade das Famílias” (Editora Integrare), foi lançada recentemente e reúne diversos tópicos relacionados à educação nos dias atuais.

“O adolescente fica com medo de demonstrar afetividade em relação aos pais e parecer uma criancinha dependente e ao mesmo tempo tem e continuará tendo um grande vínculo familiar porque, mesmo quando os filhos crescem, permanecem ligados aos pais e a outras pessoas da família”, aponta Maria Tereza.

No bate-papo a seguir, resultado de entrevista concedida por telefone ao Jornal da Cidade, ela traduz o comportamento adolescente e esclarece as principais dúvidas dos pais.

Jornal da Cidade –Qual é o papel dos pais na educação do filho adolescente?

Maria Tereza Maldonado – O papel fundamental dos pais é acompanhar amorosamente o crescimento dos filhos e crescer junto com eles, permitindo que gradualmente os adolescentes se tornem mais autônomos, porém com responsabilidade e aprendendo a tomar conta de si mesmo.

JC – Por que, nessa faixa etária, muitos diminuem o diálogo com os pais?

Maria Tereza – Isso é uma queixa freqüente. Os pais reclamam que os filhos conversam pouco com eles. Os filhos se queixam que os pais os escutam pouco. Muitas vezes os pais, preocupados em ensinar bons caminhos, podem desqualificar as opiniões do adolescente. Alguns pais, por exemplo, dizem para os filhos: “Você não sabe nada, não tem experiência de vida, é imaturo”. E quando os pais desqualificam alguma coisa que o adolescente diz, ele se fecha. É muito importante que os pais possam escutar o filho, ter paciência para escutar suas opiniões. Aí, então, eles poderão expressar seus pontos de vista e a maneira de ver as coisas, de forma que essa conversa de mão-dupla seja enriquecedora tanto para os filhos quanto para os pais.

JC - Por que na adolescência a instabilidade emocional é tão grande?

Maria Tereza – A adolescência é uma fase de transição importante. O adolescente já não é uma criança e ainda não é um adulto. Estão acontecendo muitas mudanças hormonais no seu corpo, um crescimento muito rápido e todos esses fatores alteram o campo emocional. Além disso, a adolescência é uma época de muitos desafios. Os jovens ficam preocupados com a constituição do futuro, o que os espera na vida adulta. Eles também estão começando a alfabetização amorosa.

JC – O que é isso?

Maria Tereza – São os primeiros namoros e a constituição do relacionamento amoroso. Os adolescentes estão aprendendo a se relacionar e expandindo o campo das amizades. E tudo isso vai gerar inseguranças e incertezas. É uma época de aprendizagem muito acelerada. Tudo contribui para a instabilidade emocional.

JC – Muitos jovens têm vergonha de demonstrar ou corresponder ao carinho dos pais em local público. Por quê?

Maria Tereza – Nessa definição de “já não ser uma criança e ainda não ser um adulto”, o adolescente fica em dúvida sobre quem realmente ele é. Fica com medo de demonstrar afetividade em relação aos pais e parecer uma criancinha dependente e ao mesmo tempo tem e continuará tendo um grande vínculo familiar porque, mesmo quando os filhos crescem, permanecem ligados aos pais e a outras pessoas da família. Há ainda a pressão do grupo, é aquela história de que é uma vergonha aparecer acompanhado do pai e da mãe. Então é muito freqüente, por exemplo, que os pais levem os adolescentes em uma festa e eles peçam para saltar uma esquina antes ou depois para não serem vistos como o filhinho ou a filhinha do papai.

JC – Apesar disso, em público, eles gostam de se expressar de maneira barulhenta. É para chamar a atenção?

Maria Tereza – Os adolescentes sofrem uma influência muito grande do grupo de amigos. Eles têm uma necessidade forte de serem aceitos e sentirem que pertencem a um grupo. Isso, por um lado, é muito bom porque eles estão em uma fase de ampliar as relações de amizade e, por outro lado, pode ser um risco porque essa necessidade de estar pertencendo a um grupo muitas vezes os motivam a adotar determinados comportamentos que são valorizados como “coisa de gente grande”. Entre eles, começar fumar não exatamente porque têm vontade, mas porque isso é considerado um símbolo de crescimento. Em casos extremos, podem fazer parte de uma gangue ou até mesmo experimentar drogas ou abusar do álcool porque ficam com medo de que, se não aderirem ao comportamento que o grupo valoriza, serão rejeitados, desvalorizados ou criticados. E muitas vezes o adolescente sente necessidade de se exibir, de mostrar que é independente e não é a criancinha obediente, mas às vezes exagera na dose do exibicionismo justamente para ganhar pontos junto ao grupo.

JC – É por esse motivo que grande parte deles muda o vestuário ou incorpora um estilo de se vestir da turma?

Maria Tereza – Sim, justamente por esse mesmo fenômeno de identificação com o grupo. Então eles vão vestir a roupa que é valorizada pela sua tribo, os góticos, os nerds, as patricinhas e, às vezes, imitam comportamentos, a maneira de se vestir, hábitos, freqüentam determinados tipos de lugares ou fazem de programas de acordo com as normas ditadas pelo grupo ao qual desejam pertencer.

JC – E por que os adolescentes costumam se trancar no quarto?

Maria Tereza – Especialmente na classe média, o quarto transformou-se em um centro de entretenimento. É onde o adolescente tem tudo o que ele precise ou quer, como o computador para se comunicar por meio do MSN, Orkut, fazer downloads, consultar sites ou falar ao telefone à vontade, construindo no quarto seu próprio mundo. Algumas famílias possibilitam isso e esse mundo é tão atraente e cheio de oportunidades que os adolescentes ficam ali horas e horas sem se comunicar com outras pessoas da família. Mas é muito importante que isso seja visto pelos pais, porque há o risco, não só dos adolescentes como também dos adultos, ficarem viciados em jogos eletrônicos ou passarem horas excessivas no computador. E muitas vezes a família não se dá conta do risco que os adolescentes está correndo. Isso porque uma das características da adolescência é que a noção de perigo ainda não está totalmente constituída e eles podem se expor a riscos no mundo virtual ou mesmo em determinados programas sociais, como ir a festas e voltar muito tarde. Os pais não podem largar os adolescentes à sua própria sorte. Não devem estimular a independência e deixar que eles vão onde queiram ou com quem queiram, não tenham hora para voltar ou de não dizer onde estão. Isso não é para acontecer.

JC – Os pais devem restringir o tempo que os jovens acessam à Internet?

Maria Tereza – Essa restrição precisa ser feita em consenso com o adolescente para que ele entenda isso. Na adolescência existe muito mais acelerador do que freio. Nesse desejo de viver da melhor maneira possível e na pressa de aproveitar tudo, muitas vezes é difícil para o jovem se “regular” interiormente diante do computador para estudar ou fazer outras tarefas. E aí ele precisa que haja um estabelecimento de limites relacionados a deveres e prazeres, com relação ao uso excessivo de computador, horário e programas que sejam adequados ao adolescente, porque a tendência é questionar isso, dizer que os pais são quadrados, são de outra época. Esses limites precisam ser colocados sim.

JC – Diversos pais reclamam que na fase da puberdade o filho se torna mais “respondão” ou rebelde. Qual é a melhor maneira de lidar com esse comportamento?

Maria Tereza – A construção de uma relação de respeito vem desde a infância. É claro que não é nada de errado em ser questionador e procurar saber por que não, mas toda essa postura de questionar ou não concordar precisa acontecer de maneira respeitosa. Muito freqüentemente tenho percebido que essa atitude questionadora está sendo feito com absoluta falta de respeito. Alguns adolescentes xingam os pais, batem a porta do quarto. O desrespeito é inaceitável e os pais devem colocar isso muito claramente. O questionamento é perfeitamente aceitável e é importante para os pais também por que é a oportunidade que os filhos têm de desenvolver uma boa argumentação. Por exemplo, se os pais dizem: “É muito perigoso voltar da festa às 5h da manhã porque as ruas estão desertas”. Mas o adolescente diz que é mais seguro andar às 5h do que às 3h da madrugada.” É uma oportunidade para que o jovem desenvolva uma argumentação lógica e coerente, de escuta respeitosa e até mesmo para que os pais revejam se o limite que eles colocaram é coerente ou não.

JC – Apesar disso, alguns pais ainda ficam perdidos. De que maneira eles devem estabelecer limites sem causar traumas?

Maria Tereza – Limite não causa traumas. Isso é um erro muito comum. Limites são absolutamente necessários para que o adolescente saiba conviver com a realidade de que nem tudo acontece do jeito que desejamos e na hora que desejamos. Os limites podem ser colocados de maneira clara, consistente e no intuito de proteção. Alguns podem ser conversados, como, por exemplo, o horário de chegar em casa depois de uma festa. Agora há outros inegociáveis, como dirigir antes dos 18 anos de idade. O argumento do adolescente é: “Todo mundo faz, todos os meus colegas dirigem”. Mas isso é contra a lei e aí os pais devem ser firmes e dizer não. A mesma coisa vale para liberação de bebida alcoólica em festa de adolescente.

JC – E de que forma os pais devem agir se descobrirem que os filhos bebem ou estão usando drogas?

Maria Tereza – Colocar a situação, ouvir, falar sobre os riscos do uso ou abuso das drogas lícitas ou ilícitas e deixar bem claro que isso não é admitido na família. E que, se houver insistência nessa questão, haverá conseqüências. Muitas vezes os adolescentes reclamam ou se revoltam com os limites, mas no fundo eles se sentem protegidos por eles. Muitos adolescentes se sentem abandonados quando os pais deixam eles fazerem o que querem ou bem entendem.

JC – Qual é a melhor forma de falar sobre sexo e lidar com questões como masturbação e a primeira vez dos adolescentes?

Maria Tereza – Essa questão da conversa sobre sexualidade não é para começar na adolescência. Desde a infância a criança deve ter conhecimento do corpo e saber que é preciso respeitá-lo. E quando isso começa a ser plantado na infância, o desdobramento na adolescência é muito mais tranqüilo para que o jovem possa exercer sua sexualidade de forma responsável e cuidar bem de si e do parceiro ou parceira. E também é importante abordar a questão da sexualidade dentro de um contexto da afetividade.

JC – Como os pais devem lidar com a homossexualidade do adolescente?

Maria Tereza – Vivemos em uma sociedade em que ainda há muito preconceito em relação à homossexualidade, que não é mais considerada uma doença ou perversão sexual. Também não é tida como opção, mas sim orientação sexual. Como ainda há desconforto em relação a esse tema, muitos adolescentes que sentem atração por pessoas do mesmo sexo sentem dificuldade para revelar isso à família e alguns, até mesmo quando se tornam jovens adultos, por medo que os pais os rejeitem ou se posicionem contra eles. Ainda há um desconforto grande e para os pais também não é fácil, até por conta do preconceito social. Mas quando é possível, eles devem estabelecer uma comunicação, uma conversa com o adolescente.

JC – Como os pais devem participar do trabalho pedagógico e contribuir no processo de aprendizagem?

Maria Tereza – Isso também é uma coisa que não deve acontecer só na adolescência, mas na infância, fazendo uma boa parceria entre família e escola.

JC – De que forma?

Maria Tereza – Estando junto com a escola, indo à reuniões, procurando os professores e acompanhando o rendimento escolar dos filhos, como ele está realizando a aprendizagem. É fundamental a parceria com a escola porque muitas vezes a dificuldade de aprendizagem começa e, se os pais não estão acompanhando, esse problema vai aumentando. Aí o adolescente vai se sentindo desmotivado na aprendizagem. E aí vai se sentindo incompetente, com baixa auto-estima, perdendo a auto-confiança e se desestimulando em relação à escola, o que pode desencadear uma série de outras problemas.

JC – Em seu livro “Cá Entre Nós – na Intimidade das Famílias”, a senhora abordou a questão do excesso de consumo na sociedade. De que forma esse fenômeno afeta os adolescentes?

Maria Tereza – Esse excesso de consumo é uma reflexão importante porque as pessoas com muita freqüência estão valorizando o ter mais do que ser e criando a deturpação “eu sou aquilo que eu tenho” ou “me sinto mais valorizado se estou usando uma bolsa ou calça de determinada marca”. É necessário que seja feito uma revisão muito profunda em termos de valores pessoais e de relacionamento, o estar junto com as pessoas.

JC – Como conciliar a criação dos filhos e a falta de tempo típica da vida moderna?

Maria Tereza – Tempo nós não temos. Tempo nós criamos colocando prioridades. É claro que hoje em dia o pai e a mãe trabalham bastante, mas é preciso que a família em comum acordo crie tempo, vendo menos televisão ou colocando todo mundo para participar das tarefas da casa, enfim, pensar em alternativas para que a família esteja mais em contato para realmente se acompanharem. Falta de tempo é falta de prioridade. Se os pais estabelecem como fator prioritário acompanhar os filhos, a família vai tentar soluções que caibam dentro da realidade dela para que o tempo de convívio possa ser um pouco mais ampliado e melhor aproveitado.

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