Jovens na faixa etária dos 25 aos 35 anos, com condições econômicas para ter sua própria vida, mas que preferem prolongar a permanência na casa dos pais. Namoram ou são noivos há anos e, em certos casos, não planejam oficializar a relação. Esse é o perfil da geração canguru, fenômeno cultural relativamente novo na sociedade e que ocorre principalmente em famílias liberais e com melhores condições econômicas, observa a psicóloga Maria Ivone Marchi Costa.
Doutoranda em sociologia e especialista em terapia de casais e família, ela desenvolveu recentemente uma pesquisa sobre o tema, enfocando especialmente o público masculino. “Já existia um outro estudo realizado com mulheres e, comparado aos homens, os resultados não foram muito diferentes”, diz.
Entre as principais conclusões, destaca-se a acomodação em permanecer solteiro morando na casa dos pais. “Antes era mais freqüente o jovem querer sair de casa para ter sua liberdade. Era até uma questão de honra. Hoje a maioria não precisa sair para conquistá-la”, detalha Maria Ivone.
Ela ressalta que a geração canguru desconsidera jovens adultos que moram com os pais por falta de condições financeiras ou porque precisam cuidar dos pais ou familiares.
Mas qual é a relação entre os casais que fazem parte da “tribo canguru” e o atraso da união formal? Segundo a psicóloga, o filho que não cortou o “cordão umbilical” não tem autonomia emocional e, na maioria das vezes, tem dificuldade ou não se sente maduro o bastante para assumir compromissos como o casamento.
“Há uma série de questões que envolvem esse fenômeno: pais possessivos ou superprotetores, por exemplo, que minam a segurança, deixando o filhos frágil e dificultando sua autonomia”, diz.
De acordo com Maria Ivone, isso ocorre principalmente entre os homens, que culturalmente são mais cobrados para assumir responsabilidades. Já as mulheres enfrentam um paradoxo: ao mesmo tempo em que elas usufruem do conforto na casa dos pais, sofrem forte influência da tradição do casamento.
Outro fator que contribui para a permanência dos jovens na casa dos pais é a complementaridade das questões financeiras, aponta ela. “Fica extremamente cômodo para o filho que tem tudo: liberdade, proteção, carinho incondicional da família e a diminuição de suas despesas porque tem roupa passada, comida, quarto arrumado (muitos com TV e computador) e, em alguns casos, pode levar a namorada”, exemplifica a psicóloga.
O fenômeno canguru só sobrevive porque existe um respaldo dos pais - que garantem o suprimento emocional, conforto e acomodação – e, em se tratando de namoros longos, também é aceito pelo parceiro, ressalta Maria Ivone. “Se o casal namora há tempos, ele tem condições financeiras para casar e ela não pressiona, pode estar havendo a complementaridade das partes”, diz.