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Tá tudo errado


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Embora nenhum jornalista deva estimular a violência como arma política confesso que achei merecida a invasão do Congresso Nacional, pela turma do Movimento de Libertação dos Sem Terra. Pena que o motivo que levou 500 cidadãos ao quebra-quebra seja tão inglório. O Brasil não fez, não está fazendo e nem fará reforma agrária. Perdemos essa oportunidade em meados do século 19 quando o país optou por uma linha de ocupação territorial que mostrou ser o avesso da adotada por todas as nações que se desenvolveram. Foram agricultores familiares que realizaram a transformação que garantiu – pela primeira vez em dez mil anos – completa segurança alimentar doméstica na Europa e nos Estados Unidos. Também foram esses pequenos agricultores os responsáveis pelas montanhas de excedentes que, desde meados do século 20, passaram a deprimir os valores internacionais das agrocommodities.

Agora é tarde. Reforma agrária é tema de comunista jurássico. O avanço do agronegócio, a modernização dos métodos, a alta técnica laboratorial de seleção genética do gado e a produtividade alcançada por transgênicos somente são possíveis com a cultura de extensão. E assim mesmo está difícil sobreviver. Os agricultores reclamam do câmbio, do clima, dos juros, da falta de financiamentos, do transporte precário. Todos esses fatores deprimem os preços, reduzem ou eliminam a competitividade, aumentam o endividamento, desestimulam a produção. Uma saca de milho custa na lavoura R$ 16,00, mas o agricultor não consegue vendê-la por mais de R$ 8,00. A soja custa R$ 28,00, mas o mercado só paga R$ 16,00. A situação se repete com o arroz, de R$ 28,00 para R$ 17,00, e assim por diante. Na média, os custos de produção estão superiores em 25% em relação aos preços de venda. Plantei mandioca no quintal de casa (quatro pés), reguei as plantas quase diariamente e levei 18 meses para colher as raízes. Eram ótimas, mas para minha frustração no dia da colheita os supermercados faziam promoção a 5 centavos o quilo! Hoje sou um “sem-mandioca”. O Japão destruído pela II Guerra transferiu um terço da sua área agrícola total a mais de 4 milhões de famílias, em apenas 21 meses do biênio 1947-48. Aqui no Brasil, desde criança ouço falar em Reforma Agrária. Tive a impressão de que deslancharia no governo FHC. Havia toda aquela simpatia e solidariedade da opinião pública à causa reformista, graças à novela “O Rei do Gado”, de Benedito Ruy Barbosa. Vinte milhões de hectares foram transferidos às várias centenas de milhares de família; e não aconteceu absolutamente nada. Em Marília, onde nasci, foi feita a primeira experiência de reforma agrária no governo Carvalho Pinto. Foram distribuídas terras, casas, sementes e até tratores. Diziam que o governador esquecera-se de distribuir um japonês para cada assentado. Única forma de explicar o redundante fracasso. Os “agricultores” lotearam as terras e as venderam para chacrinhas de recreio. O mundo desenvolvido há muito ingressou na era pós-industrial. Aqui, ainda continuamos na “onda agrícola” de Tofler. Por mais “vontade política” que tenha para beneficiar as legiões de desvalidos que acampam às margens de rodovias, Lula nenhum resultado conseguirá se o país continuar estagnado por questões macro-econômicas. Em muitos Estados há sobras de vagas para sem-terras. Ninguém quer mudar para o Piauí, por exemplo. Melhor seria cuidar bem dos assentamentos já iniciados. O próprio MLST recebeu de Lula, pessoalmente, com direito a foto com bonezinho na cabeça e tudo, o adjutório de R$ 9 milhões. Isso não impediu o líder do grupo, Bruno Maranhão, também prócer do PT, morador de apartamento na Praia da Boa Viagem com 250 m, de comandar a invasão. Pior foi a utilização de 42 crianças para atrapalhar a prisão que fatalmente se seguiria. Ficaram feridos 26 funcionários que nada têm a ver com a desmoralização e decadência de um Congresso onde continuam os 300 picaretas de que nos falava Lula há 15 anos. Tivesse o protesto se consubstanciado num repúdio aos sanguessugas e mensaleiros; às verbas indenizatórias de R$ 15 mil recebidas para pagar mordomias dos congressistas; à farra da gasolina; até toparia aplaudir. Está difícil acreditar nas instituições deste país. Pelo menos por quase 48 horas o meio político ficou sem ar, cabeça às tontas, entre outros males, pela decisão do TSE que endureceu ao máximo a verticalização das próximas eleições. Tudo anunciado pelo presidente do Tribunal, um fanfarrão chamado Marco Antonio de Mello, primo e apadrinhado de Collor de Mello. Metafórico, considerou “concubinato” as alianças fora das coligações nacionais. Diante da repercussão seis juízes admitiram que votaram sem saber do que se tratava. Uma zorra total. Ainda bem que a Copa já começou.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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