São Paulo - Os militantes do PSDB oficializaram ontem, em Belo Horizonte, o nome de Geraldo Alckmin como candidato do partido à Presidência da República. Seu nome foi aprovado por unanimidade na convenção nacional do partido, recebendo todos os 384 votos possíveis. Durante o evento, caciques tucanos aproveitaram para criticar o governo Lula.
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso disse Lula causou a maior “desilusão" que já teve. “Ele (Lula) lutou contra a ditadura. No entanto, ao chegar à Presidência, incorreu em vários itens da lei de responsabilidade, ao deixar as teias da corrupção atuarem ao lado de sua sala no Planalto. Jamais tive desilusão maior”, disse.
FHC explicou que sua desilusão é reflexo da alegria que teve quando Lula foi eleito. “Mesmo não tendo contado com nenhuma palavra de compreensão dele, durante os meus oito anos de governo, fiquei feliz naquele momento (em que passou a faixa presidencial)”, afirmou.
O líder do partido no Senado, Arthur Virgílio (AM), disse que o País não terá estabilidade caso Lula seja reeleito. “Não teremos estabilidade no próximo quadriênio caso esse homem seja reeleito”, disse.
Para ele, o presidente Lula não tem condições de conduzir o País no caso de um cenário internacional adverso. Para o líder tucano na Câmara, deputado Jutahy Junior (BA), o governo Lula desorganizou as conquistas do governo FHC. “Lula desorganizou o excelente trabalho que Fernando Henrique fez em oito anos de governo.”
O pré-candidato do PSDB ao governo de São Paulo, José Serra, também esteve presente na convenção. “Vamos sempre basear nossos governos no projeto desenvolvimentista de Juscelino Kubischek, no compromisso e na persistência de Tancredo Neves na luta pelas “Diretas Já’, na firmeza de Mário Covas e na capacidade de Fernando Henrique de reorganizar a economia”, afirmou. Ele aproveitou para elogiar a escolha do senador José Jorge (PFL-PE) como vice na dobradinha entre PSDB e PFL para a Presidência da República.
Alckmin lançou ontem o seu programa de governo. “Não temos medo de sonhar um País mais condizente com nossos valores. Mas entendemos que sonhar apenas não basta, é preciso dar os passos concretos para aproximar a realidade do sonho.”
O crescimento econômico, a redução dos impostos, o aumento dos investimentos e a redução das desigualdades sociais estão entre os principais pontos da proposta. Durante a convenção, o nome do governador de Minas, Aécio Neves, foi confirmado como candidato à reeleição.
Discurso
Ao optar por um discurso longo e propositivo, o candidato do PSDB à Presidência, Geraldo Alckmin, contrariou a coordenação de comunicação de sua campanha e a ala paulistana do partido.
Aliados de Alckmin em São Paulo questionavam a decisão de ler o discurso escrito, recomendando que apelasse para a emoção. Mas, convencido pela cúpula do PSDB, Alckmin preferiu um texto com densidade. Venceu a tese de que Alckmin deveria “falar para fora”, como disse o coordenador-geral da campanha, Sérgio Guerra (PE): “Tinha que ser um discurso denso. E ponto. Se não, falariam que ele não tem conteúdo”. “Foi longo. Mas era preciso para mostrar substância e conteúdo”, argumentou o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
O texto que serviu de base ao discurso é de Eduardo Graef, mas o próprio FHC escreveu alguns trechos. “Foi um texto a várias mãos”, disse Edson Aparecido.
Na noite de anteontem, Alckmin reconhecia que o discurso era produto de trabalho coletivo. “Nós estamos elaborando um discurso’’, disse, mas negou que fosse apenas ler um documento escrito pelo tucanato. “Isso é meio ridículo, né?”, reagiu.
No sábado, antes de embarcar para Belo Horizonte, Alckmin se reuniu com o presidente do PSDB, Tasso Jereissati, e com José Serra, para conversar sobre a linha do discurso. O próprio coordenador de comunicação, Luiz Gonzalez, participou de reunião com Tasso.
Na noite de sexta, já em Minas, Gonzalez e Alckmin voltaram a debruçar por uma hora sobre o documento. Havia dúvidas sobre o tamanho ideal de discurso. Guerra propôs um texto mais enxuto, por temer que a platéia abandonasse a convenção enquanto Alckmin falasse. Ficou acertado que fosse planejado um discurso de 30 minutos. Mas Tasso defendia que consumisse até uma hora. Foi um risco calculado. “Todos concordamos que o discurso deveria ser propositivo, ainda que demorasse muito”, disse Guerra. A opção era objeto de polêmica quando, sob o olhar apreensivo dos tucanos, Alckmin iniciou a leitura das 19 páginas de seu texto: “É um bom discurso, mas...”, disse o senador Eduardo Azeredo (MG). “Eu falaria um pouquinho menos. Mas tinha muitos pontos interessantes e a entonação estava melhor”, comentou o senador Heráclito Fortes (PFL-PI).