São Paulo - Um pedido de vista do ministro Hamilton Carvalhido, da 6.ª Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ), interrompeu ontem o julgamento definitivo do habeas corpus que pede a liberdade provisória da ex-estudante Suzane Louise von Richthofen, 22 anos. Ela hoje cumpre prisão domiciliar.
Suzane é acusada de ter planejado e participado da morte dos pais, Manfred e Marísia von Richthofen, em outubro de 2002, em São Paulo, Os irmãos Christian e Daniel - que era namorado de Suzane à época do crime- também são acusados, e permanecem presos.
Em junho de 2005, Suzane - então presa desde novembro de 2002 - obteve liberdade provisória por decisão do próprio STJ. Ela voltou a ser presa em abril deste ano por ordem do juiz Richard Francisco Chequini, do 1.º Tribunal do Júri. O juiz sustentou que a liberdade de Suzane representava uma ameaça ao irmão dela, devido à disputa pelos bens da família.
No último dia 26 de maio, o ministro Nilson Naves, relator do habeas corpus movido pelos advogados da jovem, decidiu liminarmente que Suzane deveria permanecer em prisão domiciliar. Para ele, a fundamentação da segunda prisão foi idêntica à da primeira e, por isso, não poderia ter sido decretada por um juiz de primeira instância, uma vez que o STJ havia dado liberdade à ré.
Ontem, o Ministério Público Federal deu parecer contrário anteontem aos recursos impetrados pelos advogados de defesa de Suzane e dos irmãos Cravinhos. Suzane tenta afastar a pronúncia do crime de homicídio - decisão pela qual o juiz estabelece a existência de um crime e quem é o seu autor. Já os irmãos Cravinhos querem também a prisão domiciliar.
Sete caras
Os promotores Roberto Tardelli e Nadir de Campos Júnior, responsáveis pela acusação de Suzane, afirmaram ontem que a ex-estudante de direito, a cada dia, demonstra sozinha quem realmente é, “uma pessoa que tem sete caras”.
Disseram também que advogado de defesa dela, Mauro Octávio Nassif, 61 anos, “usará novamente seu caldeirão para criar mais uma bruxaria jurídica para evitar que o julgamento ocorra (no próximo dia 17)”.
Em declarações de Suzane a Nassif, reveladas ontem pela “Folha de S.Paulo”, a jovem afirmou que Astrogildo Cravinhos, pai de Daniel (ex-namorado dela) e Christian, sabia e concordava com o plano para assassinar os pais da ex-estudante (leia texto). As afirmações chamaram a atenção dos promotores para aquilo que eles denominaram de “descompromisso com o resultado do julgamento”, “caso ele ocorra um dia”, ponderou Tardelli, e uma estratégia de defesa baseada na criação de factóides.
Sobre a afirmação de Suzane em que acusou Daniel de ter dito que o espírito de um rival dele ordenava a morte dos pais dela, os dois promotores riram e disseram que esse tipo de colocação reforça a crença que ela tem de que nunca será presa. “Agora só falta o defensor dela pedir para que o tal ‘espírito negão’ (era assim que Daniel, segundo Suzane, dizia tratar a visão que afirmava ter) venha depor no dia do julgamento da Suzane. Isso é tão ridículo que eles chegam até a dizer que espírito tem cor”, falou Tardelli.
Racista, drogada e doce
A primeira face de Suzane, segundo os promotores, foi a “jovem racista”, que, imediatamente após o assassinato de Manfred e Marísia, passou a insinuar que ex-empregados de sua família estavam ligados às mortes. “Ela queria acusar os pobres”, disse Tardelli.
A segunda face de Suzane seria, segundo Campos Júnior, a da “drogada’’, pois a jovem afirma que foi viciada em maconha pelo então namorado e por isso o ajudou a cometer o crime contra seus pais. A terceira foi a da “menina doce”, que apareceu na polêmica entrevista ao “Fantástico”, da Rede Globo, em abril deste ano, beijando um pássaro.
A quarta Suzane, ainda no entendimento dos responsáveis pela sua acusação, é a aquela que se apresenta como “vítima de abuso sexual”: existem insinuações - não comprovadas - de que Manfred abusava da filha. A quinta versão de personalidade de Suzane, segundo os promotores, é aquela em que a jovem quer demonstrar ser uma pessoa inimputável, ou seja, sem condições de responder juridicamente por seus atos.
A sexta Suzane é a que aparece agora com a acusação contra Astrogildo. “Agora ela aparece como a agressiva, que parte para o ataque tentando incriminar pessoas que nunca figuraram como suspeitas nesse caso”, explica Tardelli.
A sétima Suzane será aquela que seus defensores tentarão apresentar no dia do julgamento: será a da jovem que não suportava possíveis relacionamentos extra-conjugais de seus pais, principalmente por parte de sua mãe.
O advogado Mauro Nassif disse ontem que Suzane nunca afirmou ter provas concretas contra Astrogildo, mas que ela só “passou a ter um sentimento de que foi manipulada por ele e pelo filho’’. “Isso só ajuda a minha tese de defesa”, disse Nassif.