Tribuna do Leitor

Um Brasil triste...


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Ela sempre ouvia da patroa: se o governo continuar assim eu não vou poder te pagar. Ficava preocupada, pensava no filho, branquinho, forte, descendente de italianos que, conforme dizia a patroa, não teria direito a nenhuma vaga nas faculdades, apesar de tão pobre quanto os filhos da Lurdinha, esses sim, mulatos que eram, teriam sua chance. Então ela, que trabalhava duro, pagava suas contas, acreditava no Brasil, iria perder o emprego só para aquele cara se reeleger? Ele dá vale-bujão e bolsa-família estimulando a vagabundagem e ela perde o emprego? Tinha ouvido ainda que o projeto bolsa-família teve sua origem no governo Fernando Henrique, o que aumentava os louros do oportunismo e da incompetência que recheavam as cabeças dos atuais governantes. Sentia claramente que o pobre precisava de emprego e não de esmolas.

Sentia-se humilhada quando lhe perguntavam se tinha ganhado algum desses benefícios. Ficar na fila, aguardando o gesto magnânimo de alguns ao fazer caridade não era coisa pra ela. O que adiantava? Cobravam tantos impostos, de tudo e de todos para beneficiar somente alguns com uma esmola de R$ 64,00 ou para engordar as contas do exterior da maioria dos políticos. O povo sempre ficava de fora! Sonhava com um país justo, sem esmolas, que possibilitasse a vitória àqueles que trabalham, se esforçam. Gostava de trabalhar para poder pagar suas despesas e ainda poder tomar aquela cervejinha gelada nos bailes das sextas-feiras. Tinha orgulho da casa comprada com tanto esforço. Havia morado no sítio, trabalhava desde criança, aprendeu com sua mãe que trabalhar nos dá saúde, nos traz felicidade e independência. Criou os dois filhos sozinha.

Leu no jornal de domingo a matéria sobre bolsa-família e ficou muito triste ao pensar em quantos haviam se iludido com o atual governo. Pensou na decepção latente do povo que nunca foi respeitado, ouvido, atendido como merece, mas paga literalmente o pato. Corrupção e violência eram estampadas ininterruptamente. Esse governo apregoou novos tempos, tempos sem corrupção e nos apresentou o governo mais corrupto do século. Sentiu pena de si mesma, de sua condição de brasileira, ignorante, carente de médicos, remédios, susceptível a pequenas promessas ilusórias como a de se praticar um salário mínimo de R$ 800,00.

Quando o Lula falou na televisão, com aquele sorriso falso, sobre um salário mínimo decente, ela jura que acreditou que o SM iria para R$ 800,00, mesmo ouvindo da patroa: se isso acontecer você é a primeira que perde o emprego. Ela e a patroa, a patroa e ela... juntas, sofrendo cada uma à sua maneira, de empresária a doméstica, homens ou mulheres, se brasileiros, sofrem a angústia da incerteza, do descaso, da tirania de homens insensíveis e cruéis, sofrem as conseqüências de um país estagnado, sem perspectivas, um Brasil triste, mesmo que esteja com a “bola no pé”.

Teresa Moura - RG 21.887.595

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