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Jornalismo onisciente


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Por exigências editoriais escrevo logo após o jogo da Argentina (no llores!) derrotada pela Alemanha. Portanto, não sei se o Brasil conseguiu derrotar aquela seleção francesa da terceira idade. Muito menos se o Parreira sentou no banco vestido com uma burca afegã para evitar a leitura dos seus lábios pelos adolescentes surdos-mudos da Globo. Antes de qualquer análise, acho uma vitória um meio de comunicação poderoso usar “deficientes” da fala e da audição para informar. Seria um fator importante para a integração e desenvolvimento desses cidadãos esquecidos, que, no caso, revelaram tanta competência. Também não sei se o Parreira agora tem o cuidado de dialogar com o Zagallo falando pelo canto da boca ou se coloca a mão em concha para mandar alguém para aquele lugar. No momento destas mal-traçadas fico pensando: será que a Globo contratou leitores labiais franceses e para revelar indiscrições do técnico adversário?

A verdade é que está aberto um vasto campo de discussão sobre o comportamento ético dos jornalistas e também daqueles que são figuras públicas e, portanto, deveriam agir com mais recato. No quadro do Fantástico, segundo a leitura labial, o técnico do Brasil elogiava Gilberto Silva: “Gostei muito. Pena que se tirarmos o Emerson vai ser f...” Após o segundo gol do Ronaldo veio o desabafo: “Agora vamos ver. Filhos da p... Ainda pedem para o Ronaldo ir embora”. Parreira reclamou “invasão de privacidade” e a Globo, mesmo com o sucesso da leitura labial (40 pontos no Ibope), pediu desculpas expressas ao ofendido dizendo que a intenção foi apenas oferecer “entretenimento” a não “informação”. A própria Fátima Bernardes leu a nota de escusas da TV. Caso contrário a jornalista não conseguiria mais entrevistar os craques da Seleção às 2 e meia da madrugada, sob um frio de rachar, nos jardins do castelo-hotel da concentração, onde depois das 22 horas só bichinhos-de-luz podem gostar dos refletores globais. Fico imaginando o Parreira confidenciando ao Zagallo: “Quero ver se esses f.d.p. da Globo repetem isso...”

Esse caso tem antecedentes e jurisprudência. Quando uma figura pública, em lugar público, diz algo ou executa alguma ação ligada a sua vida profissional (e não privada), ninguém pode alegar invasão da sua intimidade. Parreira estava num estádio de futebol com 60 mil pessoas nas arquibancadas e muita gente ao seu redor. Existem vários telões ao redor do campo para oferecer lances inusitados aos assistentes. Está claro que futebol não é cinema mudo. Microfones estão abertos para a torcida e para os jogadores em campo. Galvão Bueno foi autor de uma leitura labial em pleno Morumbi, e, desde a cabina de transmissão, embora não seja deficiente auditivo e muito menos fonoaudiólogo. Denunciou um jogador argentino como racista por ter chamado Grafite, do São Paulo, de “negro sujo”. O atleta foi preso pelo delegado de plantão, sob acusação de crime de “racismo”, com base no que foi dito pelo narrador na TV. Nenhum especialista de leitura labial conseguiu, pela gravação, traduzir o que foi dito pelo acusado. Nos anos 80 o então juiz de futebol José Roberto Wright utilizou-se de um microtransmissor oculto para que a Globo pudesse captar tudo aquilo que dizia em campo para os atletas e deles ouvia, durante o Fla x Flu.

Assisti ao jogo de Portugal contra a Holanda. Tive a impressão que o Felipão mandou o Van Basten tomar no c... A expressão de ego-exibicionismo do Pelé foi claramente captada pelos microfones na noite de inauguração do museu com as imagens do seu futebol antológico, na Alemanha. Assim que sua foto apareceu na tela, não se conteve: “olha como sou bonito pra caralho!”

Com a digitalização e miniaturização de câmeras e microfones, não está longe o tempo em que acompanharemos imagens de jogos do ponto de vista do atleta em campo, graças a micro-aparelhos presos ao seu cabelo. Na Fórmula 1 já acontece. Poderemos ouvir os batimentos cardíacos do jogador na cobrança de um pênalti decisivo. Ver as descargas de adrenalina.

Na gíria do periodismo norte-americano, o ocorrido com Parreira tem o nome de “gotcha journalism”. Poderíamos traduzir por “jornalismo te peguei”. Mais uma prova de que os meus coleguinhas são os profissionais oniscientes da vida mundana e dos fenômenos sociais. Começa ganhar corpo uma frase lapidar que denota muito bem esse poder: “Médico acha que é Deus; jornalista tem certeza”. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)

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